“Nada é permanente, exceto a mudança”, afirmou o filósofo grego Heráclito de Éfeso há milênios. Essa máxima, que dialoga com a própria essência da existência, não encontra oposição em meu pensamento. Longe de resistir à transformação, reconheço-a como uma força natural e inevitável que molda paisagens, sociedades e as cidades que habitamos. A evolução é um imperativo, e Campinas, como qualquer organismo vivo, está em constante transformação.
A questão que se impõe, contudo, não é se devemos mudar, mas como mudar sem perder a identidade que nos define e nos conecta ao nosso passado.
O Pátio Ferroviário de Campinas é mais do que um conjunto de trilhos e edificações; é um testemunho concreto do desenvolvimento da cidade. As ferrovias, no final do século XIX e início do século XX, impulsionaram a economia cafeeira e a industrialização, transformando Campinas em um polo de progresso.
Nesse cenário, as oficinas da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, projetadas e implantadas entre 1901 e 1908, destacaram-se como um marco de engenharia. Foi nesse contexto que meu trisavô, Carlos William Stevenson (1869-1946), engenheiro civil e figura atuante na vida pública campineira, desempenhou papel relevante. Como engenheiro-chefe da Companhia Mogiana, foi responsável pelo planejamento e execução dessas oficinas, que se tornaram referência nacional.
Sua atuação não se limitou à engenharia ferroviária; também participou do debate urbanístico da cidade, com propostas apresentadas em 1933 e incorporadas ao Plano de Melhoramentos de 1934, ajudando a moldar a Campinas que conhecemos hoje. A importância histórica e arquitetônica das oficinas foi reconhecida em 1990, quando foram tombadas pelo município.
Atualmente, o Pátio Ferroviário encontra-se em estado de abandono parcial, uma área subutilizada que precisa de um novo propósito. Essa realidade, porém, está prestes a mudar com os projetos de requalificação urbana previstos para a região. A proposta inclui novas moradias, revitalização da Estação Cultura e a transformação da área em um bairro de uso misto, com atividades econômicas, serviços e espaços culturais.
É legítimo e necessário dar novo uso a esse espaço. Preservar não significa parar no tempo, mas reconhecer o valor do que foi construído e integrá-lo ao futuro. A maturidade de uma cidade se revela na capacidade de evoluir sem renegar suas raízes.
A tese que defendo é simples: a mudança é legítima, mas a destruição da memória não é. A requalificação do Pátio Ferroviário representa a oportunidade de demonstrar que é possível revitalizar um espaço histórico com respeito ao seu legado. Esse é o caminho equilibrado, que une progresso e memória. Não se trata apenas de um argumento filosófico, mas de uma responsabilidade cívica para Campinas.
Minha conexão pessoal com a história do Pátio Ferroviário, por meio do trabalho de meu trisavô, inspira minha defesa da preservação. Contudo, a história desse local vai além de uma família. É a história de muitas famílias que ajudaram a construir esta cidade. É a história dos trabalhadores, dos engenheiros e de todos os cidadãos que contribuíram para a Campinas que somos hoje. Ao valorizar essa memória coletiva, elevamos o debate e garantimos que o futuro seja construído sobre bases sólidas de identidade e pertencimento.
Retornando a Heráclito: o rio muda, mas continua sendo rio. Suas águas correm, suas margens se transformam, mas sua essência permanece. Da mesma forma, Campinas evolui e se moderniza.
Mas para que continue sendo Campinas, não pode perder suas margens históricas. A requalificação do Pátio Ferroviário, com atenção à preservação de seu patrimônio, é a oportunidade de provar que mudança e memória podem coexistir. Que este projeto seja exemplo de como construir o novo sem apagar o que nos trouxe até aqui.
João Pedro Rastelli Stevenson é estudante de direito na PUC-Campinas e trineto do engenheiro Carlos William Stevenson, responsável pelo projeto das icônicas oficinas da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro.











