O neurocientista francês Michel Desmurget tornou-se uma das vozes mais influentes do debate contemporâneo sobre infância, educação e cultura digital. Suas pesquisas e reflexões têm provocado educadores, famílias e gestores escolares a reconsiderarem os caminhos da formação leitora em um tempo marcado pela aceleração tecnológica e pela dispersão da atenção. Em obras amplamente debatidas, Desmurget chama a atenção para os efeitos do excesso de telas sobre o desenvolvimento cognitivo, linguístico e emocional das crianças e dos adolescentes.
Embora não seja um teórico da leitura no sentido tradicional, suas contribuições dialogam profundamente com os desafios atuais do ensino escolar da leitura. Um dos pontos centrais de suas análises é a defesa da leitura profunda, silenciosa e continuada como prática essencial para a constituição da inteligência, da imaginação e do pensamento crítico. Para ele, a leitura de livros exige concentração, memória, inferência, elaboração simbólica e interpretação, capacidades que dificilmente se desenvolvem em ambientes dominados pela fragmentação digital e pelo consumo rápido de imagens.
Desmurget alerta que a substituição precoce dos livros por dispositivos eletrônicos pode comprometer o repertório linguístico das crianças, diminuir o tempo de atenção e enfraquecer a capacidade de compreensão textual. Segundo suas pesquisas, estudantes excessivamente expostos às telas tendem a apresentar dificuldades maiores na leitura interpretativa, na argumentação e na aprendizagem escolar em geral. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de compreender que o cérebro humano necessita de experiências lentas, contínuas e reflexivas para amadurecer plenamente.
Nesse contexto, a escola assume um papel decisivo. Mais do que ensinar técnicas de decodificação, ela precisa criar condições para a formação de leitores efetivos, capazes de dialogar criticamente com os textos e com o mundo. As ideias de Desmurget reforçam a importância de bibliotecas escolares ativas, projetos permanentes de leitura, rodas de conversa sobre livros e tempos protegidos de leitura em sala de aula.
Outro aspecto relevante de suas contribuições está na valorização do exemplo adulto. Crianças que convivem com pais e professores leitores tendem a construir vínculos mais positivos com os livros. A leitura, portanto, não nasce apenas de metodologias, mas também de ambientes culturais que legitimam o livro como experiência humana significativa.
Em um período histórico marcado pelo excesso de estímulos, pelas notificações incessantes e pela velocidade das redes sociais, Michel Desmurget nos recorda uma verdade essencial: formar leitores continua sendo uma das tarefas mais importantes da educação escolar.
Ler não é apenas adquirir informação. Ler é aprender a pensar, imaginar, argumentar, sentir e compreender a complexidade da existência humana no mundo.
Ezequiel Theodoro da Silva é Coordenador do Grupo de Pesquisa ALLE-AULA, Faculdade de Educação da Unicamp











