Estamos a um ano da próxima disputa presidencial e a mídia já nos sobrecarrega de notícias, suposições, imagens e especulações. Nós, seres humanos, somos muito sensíveis ao poder, seduzíveis pelo luxo, impressionáveis pelo arrivismo e vulneráveis ao elitismo. Pretendemos muito, secamos pela vaidade, morremos pela egolatria, ansiando pela divindade.
O modelo de Deus das três grandes religiões monoteístas tem influência decisiva e exagerada sobre a maioria dos habitantes da Terra. Essas religiões abraâmicas compreendem 55 % da população mundial. Deus, essa figura onipotente, onipresente e onisciente que inventamos é, no mais profundo âmago do nosso espírito, um padrão criado pela nossa expectativa de estar deuses, um desejo de sermos iguais a Ele.
Temos nos estratificado em castas e classes, entrando em competições absurdas, guerras loucas, litígios criminosos, tóxicos e mortais, no fundo, almejando ser um deus. Como diriam os antigos gregos, um húbris.
O exemplo mais contundente de húbris foi o mito de Ícaro. Desrespeitando o conselho do pai, ele voou tão alto, aproximando-se tanto do sol, que a cera das asas se derreteu, provocando sua queda e morte. Essa prepotência do endeusamento segue muito viva e vigorosa em nossa contemporaneidade. Vemos muitos exemplos, especialmente de políticos e abastados, rondarem a soberba, a arrogância, a pretensão esnobe e o êxtase do poder.
Essas figuras endeusadas estão nas elites da sociedade, são as minorias que vivem no fausto e na glória. As castas que estão abaixo impressionam-se com esse suposto sucesso e querem algo parecido para elas. Como está em plena moda conseguir ser incluído em algum espaço ou tempo, subir de classe é uma demanda muito forte e bastante apoiada por esses influenciados pela perspectiva do “politicamente correto”.
Vivemos a “Era da Inclusão”. Temos destacado e convocado as atenções para minorias e diversidades, nas últimas décadas.
Antes da virada do milênio, aqui no Brasil, a Constituição de 1988 demandava a inclusão social como um princípio basilar da cidadania. E, a partir de 1991, com a “Lei de Cotas para Deficientes”, seguiu-se toda a enxurrada de iniciativas legais e institucionais das inclusões.
As movimentações da diversidade sexual são uma das mais vigorosas e contundentes. O acrônimo mais completo e reconhecido hoje é “LGBTQIAPN+”. É um exagero, mas pode continuar aumentando…
A nossa sociedade desigual, estratificada, injusta e intolerante é uma criação nossa. É importante reconhecer isso, questionar tudo para abrir chances de revisões e correções. A inclusão social garantiria um nível de pertencimento básico, conforme a pirâmide de A. Maslow sugere, algo a ser alcançado por todos os cidadãos, sem barreiras injustas. O problema é que fomos nós mesmos que montamos essa estrutura social, sempre inspirados na religião e nas ilusões da mitologia.
Toda religião propõe que a justiça virá após a morte. No século 18, filósofos iluministas criticavam a Igreja e a religião organizada por atuarem como instrumento de controle social e sustentarem a autoridade das monarquias e das hierarquias.
No século 19, K. Marx e F. Nietzsche foram mais assertivos em suas abordagens críticas à religião. O primeiro a definiu como “ópio do povo”; o segundo indicou a salvação da alma como mentira.
No século 20, duas guerras mundiais reviveram as tragédias dos embates antigos e medievais, preponderando invasões sobre as inclusões. Vivemos o terceiro milênio, já na metade da segunda década. Precisamos acelerar nossa evolução.
O nosso atraso sempre esbarra na religião. A Justiça Divina nada promete para os vivos. Especulemos um pouco mais sobre a seleção que a Justiça Divina providenciaria para os mortos. Em princípio, Deus ama todos os filhos – ninguém necessitaria de inclusão. Desde o tempo em que estiveram vivos, já deveriam ser bem acolhidos – os templos estariam com as portas abertas, receptivos a qualquer pessoa, ricos, pobres, pecadores, maiorias ou minorias. No entanto, os ladrões e mendigos preocuparam os sacerdotes. Então, as portas se fecharam…
Penetrando mais na especulação espiritual, imaginemos quando os espíritos desencarnados irão passar pelo julgamento divino. A inclusão ao Paraíso seria óbvia – o “coração” divino tudo perdoaria, todos são “filhos de Deus”. No entanto, há que se incluir alguém no Inferno – ele não pode ficar vazio! Teríamos, então, necessariamente, abençoados e amaldiçoados…
Incluir implica o oposto, a exclusão. Vemos, aí pelo mundo, muitas tentativas de refugiados tentarem ser recebidos em outros países. E muitas reações polêmicas de governos que querem excluí-los. Imigração, “green card”, “carte de séjour”, “chancenkarte”, clandestinidade, dupla nacionalidade e outros temas próximos estão na mídia internacional muito frequentemente.
No contexto das fronteiras entre países ou no das barreiras sociais, ansiamos por ascensões, participações e convites.
Na qualidade de eleitores, aqui no País, temos a obrigação compulsória de votar. É uma inclusão forçada, indiscutível. Seria muito melhor que pudéssemos escolher a participação, mas ainda não evoluímos para o convite.
O eleitor, de modo geral, tenderá a votar na pessoa que mais propuser inclusões. O desempregado aguarda a inclusão profissional ou, no mínimo, a de bolsista do governo. O doente quer ser incluído na lista de atendimentos mais urgente. O morador da comunidade pobre quer sua inclusão em um bairro mais seguro. O bandido quer um mínimo de detenção e logo se reincluir na sociedade. E assim sucessivamente, de modo que o candidato se fará elegível à medida que prometer um maior volume de inclusões.
Os candidatos de perfil populista são os que melhor diagnosticam as inclusões desejadas pelos eleitores. Mesmo navegando em mares ideológicos distintos, Trump nos EUA e Lula, aqui no Brasil, são fortíssimos exemplos. O americano seduz com a “reinclusão” no “América Forte Novamente” e o brasileiro reforça o assistencialismo.
Aí, depois do pleito, candidato incluído no cargo, as promessas podem variar, vacilar, diversos fatores estarão diferentes, de modo que muitos expectantes terão suas chances adiadas para a próxima eleição, quando novas proposições inclusivas os estarão esperando…
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor











