Todos os anos, quando chega o mês de março, os jornais, rádios, televisões e redes digitais voltam seu olhar para a mulher. O dia 8 tornou-se, internacionalmente, um momento de homenagem, mas também de reflexão sobre o papel feminino na história e na construção das sociedades.
Do ponto de vista biológico, a evolução da espécie Homo sapiens conferiu à mulher uma função singular: a gestação e os primeiros cuidados com a vida humana. O antropólogo e geneticista Ashley Montagu, em seu conhecido estudo A Superioridade Natural da Mulher, reuniu argumentos científicos para demonstrar que o papel feminino foi decisivo para a continuidade e a humanização da espécie.
Entretanto, essa evidência biológica nunca foi suficiente, por si só, para determinar as relações entre homens e mulheres ao longo da história. Somos seres culturais, e aquilo que chamamos de “natureza humana” é sempre interpretado de acordo com a organização social de cada povo e de cada época.
O antropólogo Marshall Sahlins mostrou que os comportamentos considerados masculinos ou femininos variam enormemente entre diferentes sociedades. Em grupos humanos mais antigos, coletores e caçadores, a divisão de tarefas era relativamente simples: os homens dedicavam-se à caça e à defesa, enquanto as mulheres cuidavam da prole, da coleta de alimentos e da produção de utensílios como cerâmica e tecidos.
Nesse contexto, o mistério da geração da vida frequentemente atribuía à mulher grande prestígio simbólico. Muitos mitos fundadores falam de deusas ligadas à fertilidade e à criação do mundo, como Gaia entre os gregos, Pachamama nos Andes ou Nanã Buruquê nas tradições afro-brasileiras.
Com o passar do tempo, porém, mudanças econômicas e sociais — como o surgimento da agricultura, das cidades, do comércio e, mais tarde, da industrialização — transformaram profundamente os papéis atribuídos a homens e mulheres. Muitas dessas transformações consolidaram sistemas de autoridade masculina que passaram a ser vistos como naturais e reforçados por códigos morais, jurídicos e religiosos.
Curiosamente, as próprias narrativas religiosas refletem essas mudanças. Em muitos mitos antigos, o mundo nasce de uma grande deusa-mãe; mais tarde surgem deuses andróginos; e, finalmente, divindades masculinas assumem o centro da ordem cósmica. No relato bíblico da criação, por exemplo, a mulher aparece como derivada do homem e associada à perda do paraíso — imagem que marcou profundamente a cultura ocidental.
A partir da segunda metade do século XIX, profundas transformações começaram a ocorrer. A expansão da educação, a presença feminina na indústria e o protagonismo das mulheres em momentos críticos da história ampliaram sua participação social. Nas últimas décadas, sua presença tornou-se cada vez mais expressiva na ciência, na política, nas artes e na vida pública.
Apesar dessas conquistas, ainda há muito caminho a percorrer. Como lembrava o filósofo Søren Kierkegaard, a consciência que o ser humano tem de si mesmo é fruto de um processo histórico — e a história não muda na velocidade dos decretos.
Celebrar o Dia Internacional da Mulher, portanto, não pode restringir-se à gentileza das flores ou às palavras de ocasião. A verdadeira homenagem traduz-se na construção cotidiana de relações mais justas, na revisão crítica de padrões herdados e na coragem de reconhecer, no outro, não um rival, mas um parceiro na tarefa comum de humanizar o mundo.
Quando homens e mulheres aprendem a viver a igualdade na diferença, não se trata apenas de um avanço feminino — trata-se de um salto civilizatório.
Regina Marcia Moura Tavares é antropóloga e escritora, com atuação nas áreas de cultura e patrimônio. Integra instituições acadêmicas e culturais no Brasil e na América Latina. E-mail: Reg3mar@gmail.com











