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Home Opinião

Artigo: Museus universitários e educação – por Regina Márcia Moura Tavares

Redação Por Redação
20 de maio de 2023
em Opinião
Tempo de leitura: 7 mins
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Artigo: Museus universitários e educação – por Regina Márcia Moura Tavares

Foto: Reprodução

“Educar é garantir ao indivíduo condições para que ele continue a educar-se”

 

John Dewey

 

 

A“21ª SEMANA NACIONAL DE MUSEUS” aporta neste 2023 para uma temporada de divulgação e valorização dos Museus Nacionais objetivando intensificar a relação deles com a sociedade. O tema escolhido “Museus, sustentabilidade e bem-estar”, de imediato, leva-me a lembrar dos motivos pelos quais, em 1992, na Universidade Federal do Mato Grosso, a antropóloga Edna Taveira, a museóloga Maria Cristina Bruno e eu, Regina Márcia, estruturamos e levamos a cabo o I ENCONTRO NACIONAL DE MUSEUS UNIVERSITÁRIOS (atual FÓRUM PERMANENTE DE MUSEUS UNIIVERSITÁRIOS).

Na ocasião, elegemos 3 eixos temáticos para serem discutidos, a saber: O Museu e sua relação com a Universidade, Museus e Cidadania e A Pesquisa em Museus.

Edna e eu, ambas Diretoras de Museus Universitários- UFMG e PUC Campinas, preocupávamos não somente com a conservação dos preciosos acervos sob nossa responsabilidade, mas com o sentido e utilização deles num processo educativo mais amplo dos indivíduos dentro e fora da Universidade. Entendendo os MUSEUS, como espaços educativo-culturais, nos pareceu urgente provocarmos uma reflexão sobre a relação existente entre o processo de transmissão formal e não-formal  dos conteúdos culturais em nossas sociedades latino-americanas – educação escolar , ação museológica e outros – e o projeto de ocupação do continente ao longo desses 5 séculos , a fim de trazer à discussão uma proposta de atuação museológica que privilegiasse, entre outros, a compreensão profunda dos processos sócio-político-culturais dos momentos históricos em que foram produzidos os artefatos que integravam e continuam a integrar os cerca de 60 museus de antropologia, história e artes de nossas universidades brasileiras.

 

Acredito que tenhamos atingido algumas de nossas metas neste I Encontro de Museus Universitários, o qual neste 2023 comemora 30 anos de existência, sendo que num encontro em agosto na UFRJ fará um balanço do que foi alcançado nesta caminhada.

 

Devo dizer que o que moveu toda a minha ação à frente do MUSEU UNIVERSITÁRIO da PUC Campinas sem a devida estruturação até minha gestão, porém com precioso acervo, foi a determinação de integrá-lo com as comunidades intra e extra-muros na condição e espaço onde perguntas pudessem ser formuladas, mais do que respostas oferecidas, local onde, efetivamente, pudesse acontecer a formação crítica dos sujeitos. Neste sentido, acredito que já antecipava, há 30 anos, a proposta contida nesta Semana de 2023.

Sempre soube que nossos Museus foram criados em determinados momentos históricos e em circunstâncias específicas, e que as coleções que ficam sob a guarda de nossas universidades foram escolhidas para fazer parte dos acervos por motivos específicos, tenham sido eles médicos, biológicos, estéticos ou mesmo políticos. Ulpiano Bezerra de Menezes, grande mestre, sempre nos disse que “os objetos não são fenômenos eticamente neutros, nem maquinalmente bons” e os Museus são espaços que preservam o Patrimônio Cultural Móvel de uma dada população, num dado momento de sua trajetória.

É preciso ter muito claro, portanto, que sob a aparente correção dos fatos cronológicos, do inquestionável valor estético de preciosos artefatos aninha-se, muitas vezes, uma interpretação perversa da história de uma população, do caminhar sofrido de um povo.

 

Assim sendo, compete aos que trabalham em Museus estarem atentos à contextualização do objeto, discutindo no seu próprio trabalho o grau de veracidade das informações oferecidas pela história oficial, organizando mostras temáticas e serviços educativos que, realmente, possam conduzir o público a uma revisão dos conceitos que tem de si mesmo, do grupo ao qual pertence e de suas relações com os demais povos. A ação museal pode e deve oferecer referenciais para criações alternativas no presente e elaboração de projetos futuros aos vários segmentos de nossa população, de modo a lhes permitir atingir o bem-estar individual e coletivo.

Sabemos que as nações latino-americanas têm suas existências ligadas ao fenômeno de ascensão da burguesia na Europa e o projeto por ela concebido de mundialização de sua cultura no século XVI. A autodesignação de “civilização” diante da “selvageria” dos nativos fala bem a favor do sentimento etnocêntrico que norteou a abordagem do nosso continente, ao lado de outros.

A associação havida entre o poder real e a burguesia para o desenvolvimento da empresa comercial na América permitiu o desenvolvimento de um projeto colonial que estruturou uma sociedade de relações escravistas e feudais. O projeto educacional trazido pelo clero conivente ajustou-se perfeitamente à estrutura, ou seja, implantou a cultura internacionalista na tendência, de feição literária e escolástica, alienadora e retórica, a qual não permitiria jamais ao homem local a percepção clara de sua realidade, o equacionamento de seus problemas e a criatividade dirigida à solução dos mesmos.

No dizer de Fernando de Azevedo, estudioso da Cultura Brasileira, “toda a inteligência local foi malformada, propositadamente, num processo histórico-social que objetivou, antes de mais nada, alienar o Homem de sua própria realidade, a fim de transformá-lo num dócil elemento capaz de cooperar com a empresa exploradora.”

Se durante os séculos XVI, XVII e XVIII a situação foi essa, pouco se alterou no que se seguiu. Os interesses comerciais das potências livres e poderosas no século XIX ensejaram uma ação político-cultural a qual encontrou suporte na Antropologia nascente, no evolucionismo, nos mitos da “inferioridade” e “superioridade” raciais, ideologizando as relações sociais a ponto de fazer com que a população local, envergonhada, desejasse ser tudo, menos ela mesma, mais ou menos como atualmente.

Fraca, a burguesia ascendente seguiu uma trajetória diferente da europeia, colocando seus filhos letrados a serviço dos ideais da classe dominante.

 

O ensino manteve-se alienado e descompromissado, oferecendo o serviço dos bacharéis para a organização do Estado emergente, o qual manteve as oligarquias, embora com a descentralização do poder.

 

A imigração europeia acelerada na 2ª metade do século favoreceu, também, a perda da autoestima por parte dos locais e nossos usos e costumes foram sendo cada vez mais ignorados por uma grande parcela da população que se deslumbrou com a cultura importada e a reproduziu na ânsia de ascensão social.

 

O século XX despontou com um confronto mundial o qual, de certa forma, estimulou os nacionalismos, a reflexão sobre a identidade de cada povo.

 

No Brasil tivemos o Movimento Modernista de 1922 o qual buscou resgatar na música, na literatura e nas artes plásticas, as formas, as cores, os sons da terra, enfim, o “ethos” do que se pensou ser permanente e singular no país.

Enquanto o antropofagismo dos intelectuais acontecia, as relações capitalistas ganhavam terreno com o aumento quantitativo da burguesia e a presença de um proletariado ainda ingênuo.

Tal situação, aliada aos problemas trazidos pela 2ª guerra mundial, configuraram uma realidade nova onde os desafios múltiplos instigaram o Homem local, exigindo dele respostas criativas capazes de solucionar os problemas sociais, econômicos e políticos emergentes.

E, aonde foi esse Homem buscar o conhecimento acumulado no interior de sua sociedade, e deverá continuar indo, como referencial substancial a uma ação criativa que, efetivamente, o ajude na solução dos problemas com que se depara diariamente, nesta virada de século?

Na Escola, a transculturação ainda atua acriticamente, o viés conservador permanece. No Museu, o educando e o público em geral encontram um acervo cuidadosamente conservado e exposto com apuro técnico, o qual lhe é quase sempre em sua totalidade estranho, mas que lhe é apresentado como algo importante e merecedor de atenção dentro do contexto histórico-cultural aceito como válido. Os profissionais que nele trabalham, com raras exceções, não estão preocupados em ir além da informação. A formação crítica, única capaz de permitir aos indivíduos maior clareza relativamente às multifacetadas questões que o atingem no cotidiano, não está entre suas preocupações.

Assim sendo desabituado a se olhar de frente, prisioneiro do olhar do “outro”, mutilado em sua autoestima ao longo dos séculos, tornou-se o brasileiro presa fácil dos modismos culturais, um ser altamente receptivo e passivo diante, inclusive, da avalanche cultural norte-americana que continua a ocupar o espaço deixado pela Europa. A “modernização” lhe é oferecida pelo dito 1º mundo como a única alternativa de desenvolvimento possível e, acriticamente, ele se deixa envolver pela economia de mercado como um mito salvacionista.

Se temos como verdade que a preservação do patrimônio cultural é condição “sine qua non” para a criação do presente e projeção do futuro de uma nação parece-me, também, indiscutível que nossos Museus Universitários, principalmente os com acervos históricos e antropológicos, estejam preocupados com a compreensão profunda da relação que tem sua atuação profissional com os destinos do país. Aliás, com exceções, nossas universidades estão sempre divorciadas da sociedade e seus problemas, como se essa distância lhes garantisse prestígio. Para mim, tal fato reduz-se a mais um exemplo da tradição jesuítica de ensino que permanece.

“Toda educação é um ato político”, já disse Paulo Freire. O Museu, como aparato educativo não – formal, deve pretender influir na percepção que a população tem de si mesmo, da cultura que produz no seu cotidiano, de modo a lhe permitir o exercício da cidadania, garantia do estado democrático. Se a essência do Homem se consubstancia na sua existência, a consciência que ele tem de si mesmo é fruto da percepção crítica de seu entorno.

Revelando-se, hoje, espaços privilegiados de comunicação pela tridimensionalidade que contêm, a qual fascina as gerações formadas num mundo imagético, os Museus Universitários Brasileiros não podem acanhar sua potencialidade, transformando-se somente em locais de apoio didático ou em espaços bem-comportados para a fruição estética ou a simples informação. Necessitam ser mais ambiciosos e envolverem seus pesquisadores e museólogos numa proposta que transcenda, inclusive, o universo do espetáculo e do divertimento que muitos vem incorporando para atrair visitantes, e serem capazes de com projetos criativos, consistentes e ousados na área da produção do conhecimento, fazerem emergir o Homem Crítico, ordenador dos fenômenos socioculturais e históricos que lhe são próprios.

Finalmente, devo dizer que como instituições envolvidas com a produção do conhecimento, as Universidades Brasileiras têm um compromisso inalienável com o desenvolvimento do país e devem  oferecer, através de competentes exposições de seus inúmeros e ricos acervos museológicos e de outras ações culturais, esteiras reflexivas onde o nossos jovens e homens comuns, perplexos e ansiosos neste 2023 possam mirar-se, compreender-se,  repensar-se, sonhar e ousar construir uma nação nova sem aviltar-se e a todos os demais homens do mundo.

 

Foto: Divulgação
Regina Márcia Moura Tavares é antropóloga, profa. universitária aposentada, criadora e ex-presidente do I Encontro Brasileiro de Museus Universitários, membro da Rede de Cooperação Acadêmica em Patrimônio Imaterial da América Latina e Caribe-Unesco – [email protected] 
Tags: ArtigoconhecimentoculturaEducaçãoHistóriaHora CampinasOpiniãopatrimôniopreservaçãosemana dos museussociedade
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