“As coisas não mudam, nós é que mudamos, e tudo muda conosco.”
José Saramago (1922-2010)
Deitado, olhando para o teto, um turbilhão de lembranças, feito texto escrito por Saramago em frases extensas sem aspas ou travessões, retrata uma manhã de um dia dos anos 1990. Era eu Secretário de Transportes do então Prefeito Magalhães Teixeira.
Os passageiros vindos de Sumaré e de Hortolândia eram despejados, como se fossem entulhos, ao longo das calçadas estreitas da Avenida Andrade Neves, sem que ali houvesse espaço próprio para eles, terminal que os acolhesse, sanitários onde pudessem aliviar as fadigas da viagem, total abandono que se estendia como uma ferida aberta na cidade, e nós, naquela decisão que não era de um só mas de todos os que ousam mexer no que está podre, resolvemos mudar tudo para outro lugar mais decente, onde o povo pudesse respirar sem o peso da indiferença.
Mas os comerciantes, esses que se articulam em gabinetes, ergueram-se contra a saída dos pontos de ônibus interurbanos dali da Andrade Neves, e um dia encheram o meu gabinete com vereadores da Câmara de Campinas e de outras cidades, a ameaça pairando no ar como fumaça grossa, desemprego de trabalhadores do comércio, gritavam eles, e eu liguei para o prefeito Magalhães.
Sala lotada prefeito, ameaças de toda sorte, o que o senhor acha, e ele, do outro lado da linha, com aquela voz que não manda mas persuade, respire fundo e responda para você mesmo, o que é melhor para a maioria da população, decida e toca pra frente.
E assim fechamos todos os pontos, transferimos tudo para perto do Mercadão, sem mais delongas nem piedades, e nem sempre o prefeito Magalhães Teixeira se calava sobre o que pensava. Meti na cabeça que os táxis da cidade deviam ter cor única, sonhei com carros brancos salpicados de algum logotipo azul, e abri briga com a categoria inteira pois há anos o número de táxis era fixo como pedra tombada.
Foram eles para as rádios e jornais, pauleira total que ecoava pelas ruas como um lamento coletivo, Magalhães liga, desce aqui para um cafezinho, e entre um gole e outro ele tascou, a população tem se queixado para você sobre os táxis, não prefeito, se ninguém está reclamando deixa quieto por enquanto, você já abriu muitos flancos de batalha.
Quer colocar radares para obrigar todo mundo a andar devagar, quer câmeras para fotografar quem passa no vermelho, quer cinto de segurança para todos, quer bafômetros da PM nas saídas de bares, quer reajustar tarifas todo mês, quer fechar a EMDEC OPERADORA de ônibus lá no Campo Grande. Silêncio então, um de frente para o outro, olhei fundo nos olhos dele e não vi reprovação, senti que ele queria tudo aquilo e um pouco mais, como se a cidade inteira pedisse em segredo por essas mudanças.
Olhei pela janela e lá fora a Avenida Anchieta com a pista para o centro parada, tudo congestionado como sangue entupido nas veias da cidade.
Magalhães tem mais uma coisa que eu gostaria de ter tua aprovação, aprovar o quê, estamos pensando em retomar aquele sonho antigo, fazer as principais avenidas do centro girarem num sentido único, o pessoal chama de Rótula. meu Deus, sobe pro teu gabinete, tome um chá de camomila, uma hora eu te chamo pra gente conversa.
Entrei cabisbaixo no elevador de volta ao meu andar, cabisbaixo mas feliz porque ele não tinha dito não nem uma única vez, chamei todos os diretores e disse vamos em frente, o homem topa, e vivemos anos de muito suor e muito mais alegria, como se a cidade, enfim, começasse a respirar com os pulmões limpos de quem ousou enfrentar o que parecia imutável.
Jurandir Fernandes foi secretário de Transportes de Campinas e secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos (SP). Presidiu a Emdec (Campinas), a Emplasa (São Paulo), o Denatran (Brasília) e os Conselhos de Administração do Metrô-SP, CPTM e EMTU-SP. Coordena o Grupo de Mobilidade do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo. É membro do Conselho Internacional do Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (Unicamp) e do Conselho da Frente Parlamentar pelos Centros Urbanos (Brasília). É vice-presidente honorário da UITP (Bruxelas).






