Tenho profunda convicção de que as muitas crises por que tem passado nosso país têm origem tanto no desinteresse secular do setor público, quanto no desconhecimento pela sociedade, do que a CULTURA verdadeiramente significa para o desenvolvimento das nações. De modo simples e objetivo, tentarei colocar alguns conceitos de uso frequente nas ciências sociais, procurando mostrar como certos fenômenos estão relacionados entre si, tornando-se responsáveis pelo crescimento ou estagnação dos países.
As SOCIEDADES existem nos reinos animal e humano. Meu saudoso professor Florestan Fernandes definia-as como sendo um grupo de indivíduos, que interagem entre si, objetivando um fim comum e pautando seus comportamentos por padrões. No reino animal, os padrões que regem os comportamentos são inatos, como os da sociedade das formigas, das abelhas etc. Nas sociedades humanas, os padrões precisam ser aprendidos; isto é, dependem da transmissão de modos de fazer, pensar, sentir que cada geração recebe da anterior e passa para a seguinte de forma idêntica ou modificada, de modo a prepará-la para enfrentar os desafios da sobrevivência física e social.
A CULTURA é, portanto, o conjunto dos padrões comportamentais de uma dada sociedade, um produto da CRIAÇÃO HUMANA; é algo produzido por toda a coletividade, apresentando-se diferente em extratos sociais diversos, porém, valorativamente idêntica. Os antropólogos a definem como um conjunto de códigos vivos de comunicação que circulam por uma rede complexa de instituições, organizando o comportamento, fortalecendo valores e incorporando inovações e mudanças que renovam o tecido social.
Ao contrário do que se pensa, comumente, a CULTURA não é um produto do saber de uma única camada da sociedade. Também, não deve ser vista como algo supérfluo para o consumo das elites ou como divertimento e lazer para o consumo das massas. A Cultura de uma cidade, de uma região, de um país deve ser entendida como parte integrante de seus recursos humanos, como um patrimônio e uma riqueza capazes de se converterem em instrumentos essenciais de sua prosperidade, afirmação e soberania.
A COMUNICAÇÃO da CULTURA se faz de modos diferentes em sociedades ágrafas e nas que detêm a escrita. Nos dias contemporâneos os padrões culturais chegam ao indivíduo através do espaço familiar, dos grupos de amizade e religiosos, das atividades lúdicas, da escola, das artes em geral, do espaço cibernético.
Vale lembrar que as brincadeiras livres e grupais na infância, que designamos CULTURA LÚDICA criada e transmitida pelas crianças em todas as sociedades humanas, há milênios, são da maior importância para o desenvolvimento biológico, fisiológico, psicológico, emocional e social do Homem. Abandoná-las, neste momento, em favor da virtualidade corrente, poderá representar perigo para a sobrevivência qualitativa da espécie.
Na ESCOLA, e demais espaços de convívio citados, os indivíduos têm contato com recortes específicos da cultura de uma sociedade, necessários à inserção social, porém não com a CULTURA em sua totalidade, até pelo fato de, não raramente, componentes ideológicos dosarem a oferta.
Faz-se necessário, então, o aporte das ARTES, seja a literatura, a música, o teatro, a dança, as artes plásticas, o cinema, o vídeo-arte e tantas outras que, se valorizadas e difundidas devidamente, ampliarão a sensibilidade, o conhecimento e a capacidade criativa dos sujeitos sociais, condição essencial para o DESENVOLVIMENTO de qualquer sociedade humana.
Cada povo, cada população de uma dada região ou de uma cidade acumula um PATRIMÔNIO CULTURAL ao longo das gerações; ou seja, um conjunto de bens, materiais e imateriais, fruto das relações do Homem com o seu meio natural e com os demais indivíduos da coletividade, assim como as interpretações dessas relações. Tal patrimônio é dinâmico, variável e está presente em todas as camadas sociais, sendo que preservá-lo não deve significar jamais “engessá-lo” ou “congelá-lo”, mas transformá-lo no referencial necessário ao reconhecimento da identidade pessoal e coletiva, bem como na sustentação para a criatividade necessária à invenção do futuro.
A Constituição de 1988 consagrou “o amparo à CULTURA é dever do Estado”, garantindo a cidadania cultural, a preservação da memória e do patrimônio gerado pela sociedade brasileira em sua totalidade, a valorização, incentivo, apoio e difusão das manifestações culturais. Este momento de grave crise de valores abalado pela decomposição, sem precedentes, de nossas instituições está a exigir um esforço integrado tanto da sociedade civil quanto do Estado no sentido de redefinir seus papéis na GESTÃO DA CULTURA, condição básica para uma saída satisfatória da lamentável situação em que o país se encontra.
Esperemos que a sensatez e o conhecimento estejam presentes entre os que pretendem atuar na área da Cultura, em nossa região!
Regina Márcia é antropóloga, docente universitária aposentada, escritora, palestrante, ex-conselheira do CONDEPHAAT, do CONDEPACC, membro da ACL e de várias entidades culturais nacionais e internacionais.











