O que você admira na sua parceria – independente de gênero, orientação sexual ou modelo de relação – pode ser a fonte dos defeitos dele/dela: entender (e aceitar) isso é o caminho para relacionamentos mais leves (que nos custam menos, que gastam menos as nossas “energias” psíquicas e emocionais).
Examinemos: você admira a organização e disciplina dele – mas é justamente por ser organizado e disciplinado que ele tem dificuldade com atrasos: quando você passa do horário marcado para um compromisso com ele, a tensão entre vocês simplesmente brota do chão…
Ou então: você se sente seguro com a empatia e sensibilidade dela. No entanto, a dupla dinâmica empatia-sensibilidade produz uma companheira que se magoa com facilidade.
Os exemplos poderiam seguir interminavelmente: ele é criativo e espontâneo (lado bom) e, por isso, não se adapta a rotinas (lado ruim); ela é independente e autônoma (lado bom), mas frequentemente soa distante e pouco disponível (lado ruim).
Percebe? Defeitos e qualidades coexistem e estão relacionados por contraste: são facetas de uma mesma construção psicológica e, geralmente, de uma mesma história de desenvolvimento emocional. O lado ruim do lado bom – ou seria o lado bom do lado ruim? (Você escolhe).
Agora a conversa difícil: isso é impossível de mudar. O ser humano simplesmente é assim: defeituoso, errático, incongruente com nossas necessidades mais íntimas e expectativas mais urgentes.
Ter isso em mente pode parecer pessimista, mas nos ajuda a ter uma visão menos “dura” e julgadora acerca de certos defeitos recorrentes que sempre aparecem nas relações.
A ciência do comportamento nos mostra que, com uma visão menos dura do Outro, humanizando-o e colocando suas falhas em perspectiva, aumenta nossa propensão a comportamentos de ajuda, ao perdão e à suavização de conflitos, gerando um ciclo virtuoso de empatia-aceitação-e-mudanças espontânea (detalhe: a mudança espontânea é a que dura, ok? A compulsória, ocorrida a base de “forceps”, geralmente é tão duradoura quanto um castelo de areia à beira da praia).
Talvez assim nossa frustração diminua e, enfim, possamos ter relacionamentos melhores.
Isaque Santos é psicólogo clínico (CRP: 05/53998), terapeuta de casais e pesquisador (Unicamp)









