O nosso DNA guarda registros que a memória coletiva, muitas vezes, preferiu esquecer. A presença judaica na formação do Brasil não está restrita a episódios pontuais da história colonial ou a ondas migratórias recentes: ela está inscrita no genoma de milhões de brasileiros. Dados recentes da Genera mostram que as ancestralidades judaicas — Sephardim, Asquenazim, Mizrahim e Teimanim — aparecem de forma consistente em todas as regiões do país, revelando uma herança mais profunda e disseminada do que se costuma imaginar.
Na média nacional, os brasileiros apresentam cerca de 2,2% de ancestralidade Sephardim e 2,26% Asquenazim, além de contribuições menores, porém relevantes, de Mizrahim (0,44%) e Teimanim (0,23%). Esses números não são triviais. Em genética populacional, percentuais dessa magnitude indicam eventos históricos amplos, repetidos ao longo de gerações, e não presenças isoladas.
O Nordeste, por exemplo, chama atenção pela expressiva presença Sephardim em estados como Rio Grande do Norte, Pernambuco, Ceará e Bahia. Para mim, esse dado é particularmente revelador. A região foi uma das principais portas de entrada dos judeus ibéricos, muitos deles convertidos sob coerção durante a Inquisição.
No Sudeste, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, observa-se um equilíbrio entre as ancestralidades Sephardim e Asquenazim, com leve predominância desta última. Esse padrão reflete um Brasil mais recente, marcado pela chegada de judeus da Europa Central e Oriental nos séculos 19 e 20, fugindo do antissemitismo e das guerras.
São Paulo, apesar de ser um polo migratório extremamente diverso, mantém percentuais elevados, o que demonstra que a ancestralidade judaica não foi diluída, mas incorporada à complexidade genética do estado.
O Sul e o Centro-Oeste também apresentam presença consistente dessas linhagens, ainda que com percentuais ligeiramente menores. Aqui, novamente, a genética dialoga com a história: regiões que receberam fluxos intensos de imigração europeia não ibérica ou que se desenvolveram mais tardiamente tendem a apresentar uma composição genética mais diluída dessas ancestralidades específicas. Ainda assim, elas permanecem discretas, mas persistentes.
O que esses dados nos mostram é que o Brasil nunca foi geneticamente homogêneo. Cada região traduziu, à sua maneira, os encontros, deslocamentos forçados e adaptações culturais que marcaram sua formação. A ancestralidade judaica é parte desse mosaico e desafia a ideia de que determinadas heranças pertencem apenas a grupos específicos ou comunidades fechadas.
Compreender essa profundidade ancestral não é apenas um exercício histórico ou identitário. Ela tem implicações diretas para a medicina personalizada. Diferentes ancestralidades influenciam o risco para determinadas doenças, a resposta a medicamentos e até a forma como o organismo metaboliza substâncias. Conhecer essas camadas genéticas é fundamental para oferecer uma medicina mais precisa, preventiva e individualizada.
O DNA, portanto, deixa de ser apenas um arquivo do passado. Ele se torna um mapa vivo, que conecta história, identidade e saúde. Ao revelar a ancestralidade judaica no Brasil, a genética nos obriga a repensar quem somos não como uma identidade fixa, mas como o resultado contínuo de encontros.
Ricardo di Lazzaro é médico doutor em genética e fundador da Genera, marca da Dasa, empresa de medicina diagnóstica no Brasil









