Final de ano. No mundo cristão, somos solicitados a entrar no clima festivo e programar comemorações.
Felizmente, muita coisa que nos envolve nesta época pode ser bem-intencionada, motivada por incentivos afetuosos, boa expectativa de trocarmos cumprimentos e presentes. Infelizmente, entretanto, as induções da propaganda comercial são abusivas e descabidas. O apelo ao consumo é afrontoso e inconveniente.
Cria-se também uma alegoria fantasiosa, induzindo-nos a mergulhar na “magia do Natal”.
A palavra “magia” é usada com conotação efusiva, sugerindo um ânimo especial, uma névoa de otimismo encantador, um enlevo de sucesso e euforia. Entrar no contexto “mágico” de um ambiente que é preparado para isso, pode ser agradável, prazeroso, uma recaída infantil divertida e saudável.
Se você, pessoa adulta, vai a um parque de diversões, inespecífico ou temático, é melhor participar ativamente daquele espaço projetado para o regozijo lúdico. Reassuma sua infância, seja o mais pueril possível. Viva e reviva os brinquedos com toda a força e graça.
Ao visitar o mundo de encantamento e ilusão, é melhor imergir de corpo e alma, fruir das atrações, das oportunidades surpreendentes, cinematográficas e sugestivas. Enquanto estiver neste universo, mergulhe, participe do fantasioso. Quanto mais imerso no encantamento, durante o tour, menos você se prejudicará, finalizado o programa. De lá sairá com menos repercussões sobre sua saúde mental e emocional.
Se está brincando com filhos, sobrinhos, netos e toda uma galerinha, quanto mais você se infantilizar, melhor. Esteja bem pueril no grupo infantil.
Retornando à vida adulta, recupere a maioridade, volte a pensar, repensar e se conduzir como adulto. Isso parece tão simples, natural e lógico. No entanto, temos nos confundido.
Acreditar em Papai Noel passou a representar uma linha de referência direta, um limite definitivo entre o esclarecimento inteligente e a boçalidade estúpida.
Quando alguém se sente questionado sobre sua capacidade cognitiva, imaginando que o estão confundindo com um idiota, costuma se defender assim: “O que estão pensando? Acham que eu acredito em Papai Noel?”.
Aliás, este é um ponto delicado e emblemático na evolução de uma criança.
Qual seria o momento adequado de quebrar a ilusão, de revelar que o bom velhinho não existe e que os presentes são comprados pelos pais?
Veja episódio que ajuda a definir isso. Foi um fato verídico, mas muito divertido, sobre a expectativa em se apresentar às crianças uma introdução à sexualidade, à reprodução dos humanos. Menino de 9 anos e colega de 10 brincavam no térreo. A funcionária do mais novo veio buscá-lo. Deixaram o mais velho no apartamento respectivo e retornaram ao deles. Logo que viu a mãe na sala, o garoto disparou: “Mãe, de onde eu vim?”. Ela, meio sem jeito, reajustou-se no sofá e tentou dizer que o filho veio da barriga dela, que o pai ali colocou uma sementinha, e que… O moleque a interrompeu: “Mas, mãe, de onde eu vim?”. Ela continuaria, mas a funcionária salvou a patroa: “Não, senhora, é que o colega falou que veio de Minas”…
Esclarecer e desmitificar são tarefas mais fáceis quando acompanhamos a ansiedade das crianças, e não a nossa. Aguardemos que delas venham as perguntas. Depois, tentemos oferecer as respostas.
E nós, quando nos livraremos da magia, do encantamento, das ilusões e mitos desnecessários, que atrapalham o nosso desenvolvimento existencial? Talvez resistamos muito a perceber, mas nossas vidas estão demasiadamente influenciadas pelo mundo de fantasias. Eis alguns exemplos dessa nossa escravidão narcisista, vaidosa e delirante.
Somos muito lotéricos. Jogar e apostar são oportunidades de ganho, de fortuna? Não! Sabemos que, estatisticamente, a chance é absurdamente rara. Se for divertido jogar na Mega-Sena, apostemos o mínimo necessário.
Acreditamos muito em nós mesmos. Sem abalar a autoestima, precisamos limitar nossas pretensões. Encarar os desafios é essencial, claro, mas não atropelemos os passos. Não precisamos ser campeões, apenas bons competidores. Somos muito atraídos pelos efeitos químicos. Usamos psicotrópicos com facilidade – remédios e drogas.
Temos nos submetido à imunização cognitiva. Só nos interessa reforçar aquilo que já sabemos, como se sempre estivéssemos certos e endeusados. Preferimos as crenças cômodas (principalmente as religiosas) e nos blindamos das verdades incômodas. Quanto mais fanáticos, extremistas, mais imunizados cognitivamente. Raramente questionamos as lavagens cerebrais (a rigor, mentais) que já nos embutiram.
Assim, lidamos muito mal com frustrações e críticas. Estamos mal preparados, não aproveitamos as oposições para revisões e recomeços.
Figuras icônicas, muito celebradas, também são profundamente massacradas. Walt Disney, gigante do entretenimento, o nome maior da diversão fantasiosa, já foi alvo de críticas pesadíssimas. Carl Hiaasen sugeriu: “A Disney é tão boa em ser boa que ela manifesta um mal; tão uniformemente eficiente e cortês, tão confiavelmente limpa e conscienciosa; entretenimento tão infalível que é irreal e, portanto, é um agente de pura malignidade”.
Um norte-americano aproveitou e lançou, com oportunismo: “Disney fez mais mal do que Trump”…
E, para fechar: “Amamos pouco e mal”, ensina Jean Y. Leloup. Sim, pois idealizamos e romantizamos o exercício do amor, tentando seguir um modelo divino.
Humildade, exercício amoroso humano e senso crítico persistente equilibram voar nas aventuras e curtir a realidade…
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor.












