O acesso ao brincar em espaços públicos é essencial para o desenvolvimento infantil, para a socialização e para a qualidade de vida das famílias. Entretanto, quando se fala em inclusão, ainda existe uma diferença importante entre praças adaptadas para pessoas com deficiência e praças verdadeiramente inclusivas, principalmente para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Nos últimos anos, diversas cidades passaram a investir em parques e praças adaptadas, voltadas para deficiências físicas, com rampas de acesso, brinquedos adaptados e pisos acessíveis. Esses avanços são fundamentais, porém as necessidades das crianças autistas envolvem também aspectos comportamentais e de segurança ambiental que muitas vezes não são contemplados nesses espaços.
Um dos fatores mais relevantes é o chamado comportamento de fuga, quando a criança se afasta rapidamente de seus responsáveis ou de um ambiente considerado seguro. Esse comportamento está bem documentado na literatura científica e representa um fator importante de risco para acidentes.
Um estudo publicado na revista científica Pediatrics, intitulado “Occurrence and Family Impact of Elopement in Children With Autism Spectrum Disorders”, identificou dados importantes sobre esse fenômeno em crianças com TEA. A pesquisa mostrou que 49% das crianças com TEA tentaram fugir ou se afastar de um ambiente seguro após os 4 anos de idade; 26% ficaram desaparecidas tempo suficiente para gerar grande preocupação das famílias; entre os casos de fuga, 65% tiveram risco de acidente com trânsito e 24% estiveram em risco de afogamento durante o episódio.
Esses dados demonstram que, para muitas famílias, frequentar espaços públicos de lazer pode gerar preocupação constante, especialmente quando os ambientes são abertos e sem mecanismos de proteção, levando-as, na maioria das vezes, a permanecer em suas casas, com um ambiente mais seguro.
Outro ponto importante diz respeito à presença de locais com água, como lagoas, lagos, espelhos d’água ou piscinas em parques e praças. Muitas crianças com TEA podem apresentar dificuldade em compreender riscos relacionados à água, como diferenciar água limpa de água contaminada, reconhecer profundidade ou avaliar situações de perigo.
A segurança ambiental é um dos elementos fundamentais quando se pensa em praças inclusivas que também considerem as necessidades do autismo.
Diferentemente de muitas praças tradicionais, esses espaços podem ser planejados com cercamento ou delimitação segura, portões de acesso e organização que permita melhor supervisão por parte dos responsáveis.
É importante destacar que uma praça inclusiva pensada nesses moldes, não é um espaço exclusivo para crianças autistas. Trata-se de um ambiente planejado para todas as crianças, principalmente as menores e outras que necessitam de ambientes mais seguros e estruturados. Na prática, tornam o espaço mais seguro e acolhedor para todos.
Investir em praças inclusivas com esse olhar ampliado significa promover uma inclusão real no espaço urbano. Mais do que adaptar brinquedos, trata-se de planejar ambientes que garantam segurança, participação e o direito ao brincar para todas as crianças.
Roberta Micuci Marques é fisioterapeuta especializada no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e Coordenadora Técnica do PAICA, Programa de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente com TEA. O PAICA é uma Organização da Sociedade Civil (OSC) sediada na cidade de Campinas/SP que atua na promoção da inclusão social e na melhoria da qualidade de vida de crianças e adolescentes com TEA, realizando mais de 1,5 mil atendimentos terapêuticos mensais.











