Você já refletiu sobre a possibilidade de caminhar de forma segura sem a necessidade de algo que possa te entorpecer? Essa era minha indagação, desde quando era criança e via um vizinho lutando entre manter-se bem e ficar afogado na bebida, entre andar cambaleante e firme.
Ao longo de minha trajetória tive o privilégio de conhecer de perto aquele lugar que o fazia manter-se firme ao seguir os passos sugeridos, as salas de Alcoólicos Anônimos (AA). Observar e certificar-me de muitas transformações e ressignificações que acontecem em uma reunião de membros de AA.
A maioria das pessoas que adentram as salas de AA chegam desacreditadas pela família, sociedade e de si mesmos.
Perderam muito, sentem-se impossibilitados de agir e pensar de forma diferente. Mas, desde a fundação de AA, a experiência de ser acolhido de forma cuidadosa e empática, a identificação com outra pessoa que vive o mesmo e resiste, assim como compartilhar suas dificuldades longe dos julgamentos morais, faz toda a diferença. É de fato o caminho inverso ao vivido até aquele momento. Essas são dores que só quem experimenta sabe o que pode representar e causar.
Para um amigo de AA, um profissional que colabora com a divulgação dessa irmandade, assim como eu, só nos cabe perceber os bons resultados dessa amorosidade e progredir aprendendo com essa caminhada que se inicia na compreensão de que algo maior nos une, conduz cada um de nós, e que através da ajuda mútua pode nos conduzir a uma caminhada desafiadora, de resgate, de aprendizado e de muitas possibilidades de mudanças, trilhando novos rumos.
Eis aí o primeiro e tão desafiador passo dessa caminhada! Admitir que a vida tomou um rumo doloroso demais e com muitas perdas.
Mas que, a partir do momento que reconhecemos que a relação com o álcool é nociva e que essa obsessão prende ao ciclo de perder, sofrer e adoecer. Mas que, ao fazer esse reconhecimento, pode-se seguir caminhando, humildemente pedindo ajuda e aos poucos recobrando a sanidade.
Vi neste momento muitas pessoas voltando a acreditar em si mesmas, no outro, no grupo, em algo maior. E assim, revendo sua história de vida de forma cuidadosa, compartilhando suas experiências e se fortalecendo para corrigir suas falhas e faltas, fazendo algumas e necessárias reparações para continuar caminhando, não mais de cabeça baixa, como se somente o chão, a sarjeta ou a lama fosse seu lugar. Até aqui, algum tempo de reuniões frequentadas diariamente passam e dia após dia, pensando somente no hoje, no agora, longe do copo de bebida.
Parece improvável para você? Mas é possível, só por hoje é possível!
Esse é o lema em Alcoólicos Anônimos, como uma oração é proclamado por todos para reforçar dentro de si essa importante decisão de se afastar da bebida. E a partir dessa decisão muitas experiências podem ser vivenciadas, ressignificando dores tão impregnadas e encarando o mundo e as pessoas nos olhos, com a coragem para mudar o que é possível ser mudado e aceitando o que não é possível, sempre com a sabedoria necessária para compreender cada coisa que é vivida.
Camila Ribeiro é psicóloga e amiga de Alcoólicos Anônimos












