O exercício de escrever é tarefa muito gratificante, mesmo diante do desafio de não ser lido ou de ser criticado. Alguns autores famosos, caso cometam um erro gramatical, logo são lembrados como reformistas do idioma. Os menos conhecidos são apenas corrigidos…
Lêdo Ivo, respeitado escritor e cronista alagoano, indica: “O grande escritor não precisa ser nem muito inteligente nem muito culto. A inteligência e a cultura são, contudo, indispensáveis nos escritores menores”.
Acredito que, entre o escritor maior que segue seu fluxo natural, inspirado propriamente na arte literária, e o menor que se acautela, engessado à erudição técnica, a diferença pode ser pesada ou leve, a depender desse balanço das letras e da gramática. Se a técnica serve à arte, a diferença é “leve”; se a técnica a sufoca, o resultado torna-se “pesado”.
Então, vou seguindo minhas inspirações, tentando escrever naturalmente e aplicando as técnicas gramaticais, nunca me esquecendo de pedir uma revisão…
Os temas do título estão em plena efervescência. Meu mais recente artigo procurou mostrar um ponto nevrálgico, muito sensível: a imunização cognitiva. Ou seja: a pessoa cognitivamente imunizada não consegue se permitir um mínimo acesso às opiniões e ideias opostas às suas. As crenças dessa pessoa se tornam “blindadas” contra qualquer evidência ou argumento contrário, como se a mente criasse anticorpos para rejeitar informações que questionassem sua visão de mundo.
Hoje, quero propor algumas reflexões que sugerem chances de desbloquear um pouco esses paredões.
Em poucas palavras, a ideologia da Esquerda se empenha essencialmente pela Justiça Social, com o Estado concentrando poder. E a ideologia da Direita visa fundamentalmente a Ordem e a Liberdade, com o poder descentralizado do Estado.
O resumo acima é um modo didático e simplista de sintetizar o problemão, muito complexo e extenso. No entanto, para desafiar a imunização cognitiva, regulemos o raciocínio.
Pensemos em exemplos fortes e relativamente recentes na História, incluídas as exceções que sustentam as regras.
Um apreciador de Hitler – ditador da Direita – sempre achará algo de positivo, uma valorização que sustente seu apoio. E terá dificuldade em reconhecer erros, mesmo que criminosos, do seu ídolo. Um apreciador de Mao Tsé-Tung, mesma coisa, do lado da Esquerda.
Como fazer que um progressista critique seu ídolo e um conservador critique o seu?! É algo realmente difícil, pois a pessoa está tão identificada com o líder, cuja introjeção está tão assimilada, que uma crítica passa a ser uma autoagressão ou uma traição a si mesmo.
Como o seguidor fiel acredita que o líder é a personificação dos seus valores, ao invés de atacá-lo, apontando erros da liderança, pode-se rever alguma contradição que o seguidor defende. Por exemplo: “Você, que defende a liberdade, como vê essa censura da imprensa vinda de quem você apoia?”. A tática pode fazer com que o indivíduo tenha que escolher entre o princípio e o ídolo.
As críticas que venham de fora são sempre rebatidas. Talvez, uma que venha “de dentro” facilite o caminho. Ou seja, para quebrar o culto, é melhor uma “insubordinação interna” do que uma contestação de ‘inimigo externo”.
Entretanto, para que alguém critique seu próprio lado, ele precisa sentir que o ambiente é seguro e que admitir o erro não significa a destruição total de sua identidade política.
O extremismo tende sempre a reforçar a polarização, trabalhando com opostos binários. Assim, o ídolo é santo OU demônio. A conjunção OU é inadequada. Deve ser substituída pela conjunção E. Portanto, o ídolo é santo E demônio.
O exercício conceitual se mantém com o E, mostrando, por exemplo: o líder trouxe estabilidade econômica E foi um ditador sanguinário.
A ambivalência assusta, é um terror para o fanático, mas é a base da maturidade psíquica.
Uma reflexão importante é reconhecer que grandes líderes são figuras messiânicas. O pensamento crítico não contempla jamais um “messias”, pois a deificação confunde contestação com “pecado”.
Uma boa ajuda no rompimento da blindagem é quando ocorre um grande abalo na crença.
Eis uma sacudida na Esquerda.
Foi ação do escritor e filósofo francês André Gide, prêmio Nobel de Literatura – este foi mesmo contemplado como grande escritor. Gide tem frases ótimas: “Todas as coisas estão ditas, mas, como ninguém escuta, é preciso recomeçar sempre”.
Ele defendia muito a ideologia comunista, era o “queridinho” do regime. Na teoria, tudo de acordo. Convidado oficial, ele foi à União Soviética. Ao ver de perto a repressão, o culto a Stálin e a falta de liberdade, ele não se calou.
Voltando à França, escreveu muito sobre a sua decepção com o socialismo. O contato com a realidade quebrou a imunização cognitiva que se estruturava na sua cabeça.
Agora, uma balançada na Direita. Os norte-americanos Rick Wilson (estrategista político e consultor de mídia), Stuart Stevens (consultor político e escritor) e outros criaram o “The Lincoln Project”, um exemplo vigoroso de “ruptura de ídolo”, mostrando que o populismo havia sequestrado o conservadorismo.
Para eles, o líder (Donald Trump) tornou-se um inimigo dos próprios princípios que a direita clássica deveria proteger. O culto à personalidade e o estilo populista sugeriam que a vontade do líder passava a valer mais do que os preceitos ideológicos.
Um esforço para reconhecer algum interesse pessoal no enredo da ideologia também ajuda a questionar os valores implícitos. Por exemplo, os funcionários de uma companhia estatal se organizavam de modo corporativista para que todos não votassem no candidato que privatizaria aquela empresa. A imunização cognitiva pode ter uma essência utilitarista…
O vínculo com o líder muitas vezes é libidinal. O seguidor “investe” sua libido no ídolo. Retirar esse investimento sugere perda importante e luto correspondente, mas, vale a pena reinvesti-lo na própria autonomia e na construção de uma cidadania mais saudável.
Minha expectativa é a de que esses exercícios sirvam de inspiração para muitos outros. Nós precisamos aprimorar bastante o pensamento crítico, não podemos nem devemos simplesmente estar em um papel de seguidor na massa impensante e obediente.
Assim como o escritor precisa de revisão gramatical para ser lido, o seguidor precisa de “revisão cognitiva” para pensar.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor











