“Quando uma pessoa idosa morre, é como se uma biblioteca pegasse fogo”
(Hampaté Bâ)
Pessoas idosas desempenham papéis sociais e econômicos vitais como cuidadoras, mediadoras e elo de ligação nas suas comunidades, proporcionando muitas vezes estabilidade e continuidade. As pessoas idosas podem oferecer solidariedade e apoio umas às outras e a outras pessoas de diversas faixas etárias, e muitas vezes atuam como primeiros respondentes em crises de qualquer natureza. Ao mesmo tempo, as evidências mostram que os idosos são afetados de forma desproporcional por crises humanitárias devido a uma combinação de doenças crônicas preexistentes, limitações de mobilidade, deficiências sensoriais e limitações neurológicas ou cognitivas.
Contudo, as pessoas idosas continuam a ser frequentemente negligenciadas nas respostas dos vários sistemas de saúde. São menos visíveis na coleta de dados, menos priorizadas na concessão de programas e menos propensas a serem alcançadas pelos modelos de prestação de serviços padrão. Em 2050, uma em cada cinco pessoas terá mais de 60 anos, e 80% delas viverão em países de baixa e média renda, contextos onde as crises sociais e humanitárias ocorrem com maior frequência e onde os sistemas de saúde são, muitas vezes, os menos preparados para atender às necessidades complexas dos idosos.
Essa mudança demográfica cria uma necessidade urgente de reexaminar como o preparo e as respostas levam em conta os direitos e as necessidades de saúde das pessoas idosas. O preconceito etário ocorre nos níveis individual, comunitário e institucional.
Para ilustrar a situação difícil das pessoas idosas podemos citar as condições de saúde e os sintomas e características da violência contra pessoas idosas em crises humanitárias. Pessoas idosas na Ucrânia, por exemplo, que não conseguiram fugir da violência, permaneceram em apartamentos destruídos, sem aquecimento ou acesso a serviços. Outros exemplos podem ser citados como os cuidados oftalmológicos e o rastreio de câncer, o que aumenta os agravos e prognóstico dos idosos com doenças frequentes nesta faixa etária. Outras necessidades de uma população idosa, incluem a incontinência urinária e o prolapso de órgãos pélvicos, frequentemente negligenciadas e não atendidas.
Há necessidade crucial de integrar os cuidados paliativos ao cuidado do idoso, não apenas para aqueles em fase terminal, mas também para aqueles que sofrem por longo período. Os cuidados paliativos desempenham um papel fundamental na preservação da dignidade e no alívio do sofrimento, mas permanecem amplamente negligenciados em muitos contextos. Nem todos os idosos têm deficiência, e nem todas as pessoas com deficiência são idosas. Assim, muitas necessidades devem ser observadas, como cadeiras de rodas, bengalas, aparelhos auditivos e óculos, e como essa necessidade não atendida impacta a independência, a dignidade e a qualidade de vida das pessoas, sejam ou não idosas.
Há, sem dúvida, um papel crucial das pessoas idosas em suas comunidades como cuidadoras e fonte de apoio para outros idosos e membros da comunidade, e todos devem refletir sobre a melhor forma de apoiar esses papéis.
A OMS preconiza que se forneça uma continuidade de cuidados integrados que ajude a reorientar os serviços de saúde e sociais para um cuidado mais centrado na pessoa idosa e que isto seja coordenado. A abordagem apoia a otimização da capacidade intrínseca e da capacidade funcional das pessoas idosas e a disponibilização de serviços na comunidade, próximos à vida delas.
A importância de abordagens baseadas na comunidade para combater o isolamento social e de serviços de saúde inclusivos para todas as idades, incluindo adaptações para pessoas com deficiência, são fundamentais. Assim, para proceder eticamente em situações de escassez, os recursos teriam que ser usados de forma mais eficiente, priorizar intervenções e que são necessários padrões mínimos de cuidado para a terceira idade.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.











