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Home Opinião

Artigo: Produtivismo e imediatismo da academia confundem o público – por Marcelo Yamashita

Redação Por Redação
17 de março de 2025
em Opinião
Tempo de leitura: 5 mins
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Artigo: Produtivismo e imediatismo da academia confundem o público – por Marcelo Yamashita

O Brasil contabiliza 1.461 pesquisadores listados. Foto: Freepik

“Vacinas não estão associadas ao autismo[..] Há 1,25 milhão de crianças estudadas e não existe autismo associado [à vacina] de sarampo!”. Esta é uma das falas do senador Bill Cassidy durante a sabatina no Senado norte-americano para confirmação de Robert Kennedy Jr (RFK Jr) como novo secretário de Saúde dos EUA. Ato contínuo, RFK Jr rebate: “Acho que um cientista de Louisiana, chamado Mawson, mostrou o oposto”.

A declaração negacionista de RFK Jr – vale ressaltar que inexiste a relação entre vacinas e autismo – é chocante por vir de uma pessoa que estará à frente das políticas de saúde dos EUA nos próximos anos. Porém, do ponto de vista do debate público, não chega a ser surpreendente. A pandemia evidenciou que uma parcela significativa do público não especializado tem uma visão equivocada sobre como se formam os consensos científicos, acreditando que são construídos democraticamente, através de assembleias, como se mais artigos favoráveis à Terra plana pudessem modificar o formato do planeta.

O objetivo aqui não é discutir o método científico ou o processo de formação de consensos entre os cientistas, mas analisar como o excesso de publicações científicas, aliado à queda na qualidade dos trabalhos, compromete a imagem da ciência. Esse cenário reforça, entre o público geral, a percepção de que o conhecimento científico é altamente instável, alimentando a impressão de que “um dia o ovo faz mal, no outro faz bem”. Nos últimos anos, proliferaram estudos baseados em correlações entre variáveis diversas que, isoladamente, pouco esclarecem sobre relações de causa e efeito. Muitas dessas correlações surgem por mero acaso, e a divulgação acrítica desses estudos pela imprensa tem intensificado o problema.

Mark A. Hanson e colaboradores publicaram um artigo que evidencia como a cultura do “publique ou pereça”, incentivada pela própria Academia, tem inundado a literatura científica com publicações de baixa qualidade. Embora esse excesso de artigos irrelevantes não cause grandes problemas dentro da própria comunidade científica, que em geral ignora os estudos ruins, ele contamina o jornalismo científico e distorce o debate público.

Entre 2016 e 2022, a publicação de artigos em grandes grupos editoriais como Elsevier, Springer, Wiley e Nature aumentou, respectivamente, 41%, 52%, 36% e 32%. Em números absolutos, essas quatro editoras publicaram, juntas, mais de um milhão de artigos apenas em 2022. No entanto, esses crescimentos são modestos quando comparados ao aumento expressivo da produção em editoras menos tradicionais, como MDPI, Frontiers e Hindawi, cujos números cresceram, no mesmo período, 1.080%, 675% e 139%, respectivamente.

O crescimento expressivo dessas editoras mais jovens foi impulsionado principalmente pela publicação de edições especiais (special issues), nas quais a organização fica a cargo de pesquisadores convidados. Inicialmente, essas edições eram predominantemente derivadas de conferências ou destinadas a aprofundar discussões sobre temas de grande interesse dentro de uma comunidade científica. No entanto, essa finalidade original parece ter sido deixada de lado, e as special issues passaram a ser utilizadas como uma estratégia para aumentar rapidamente o volume de publicações.

Em 2022, cerca de 90% dos artigos publicados pela MDPI saíram em edições especiais. Além disso, o tempo médio para a aceitação de artigos nessa editora foi de cerca de 37 dias, um período significativamente menor do que a média da maioria das editoras tradicionais, que ultrapassa 130 dias. Mesmo entre outras editoras jovens que tiveram rápido crescimento, como Frontiers e Hindawi, os prazos médios de aceitação são consideravelmente maiores, ficando em torno de 72 e 83 dias, respectivamente.

É fato que a qualidade de um artigo não depende do periódico em que foi publicado, e a comunidade científica tem a capacidade de separar o joio do trigo, ou seja, os cientistas, em geral, são resilientes à poluição editorial, o que impede que isso cause danos significativos a grupos de pesquisa. O problema surge quando conclusões equivocadas de estudos malfeitos chegam à esfera pública. A falta de repertório diversificado, a abordagem acrítica e uma certa dose de “ignorância conveniente” – expressa, por exemplo, na ideia de que um jornalista não pode questionar a qualidade do estudo de um professor – fazem com que qualquer matéria publicada em um veículo conhecido, independentemente da qualidade do estudo original, seja amplamente replicada em diversas mídias, amplificando desinformações e distorções.

A abundância de artigos bons e ruins, que para o público não especializado parece formar um todo homogêneo – onde diariamente surgem supostas curas para o câncer ou alertas sobre produtos que causam Alzheimer –, leva à perda de confiança na ciência ou à formulação de um conceito subjetivo e distorcido do que é ciência. Raramente o leitor atribui a culpa por conclusões equivocadas a uma curadoria falha, e o ônus recai sobre os cientistas.

Neste ponto, talvez seja possível estabelecer um paralelo com os egressos das universidades, sejam de pós-graduação ou graduação. Como noticiado pela Agência Fapesp, as universidades públicas paulistas e a Fapesp pretendem alinhar ações para fazer com que a pós-graduação e, por tabela, as universidades públicas, se torne mais “atrativa, diversificada e compatível com as demandas sociais”. O debate sobre a “crise de identidade” ocorreu durante o seminário “As transformações esperadas na pós-graduação brasileira”, realizado na USP.

Conforme escrevi no artigo “Pós-graduação brasileira: crise ou confusão?”, os números não apenas indicam que não existe uma grave crise na pós-graduação brasileira, mas também revelam um crescimento no número de matriculados, redução da evasão e expansão da oferta de cursos em todas as regiões do país.

Da mesma forma, os números das editoras apresentados aqui demonstram que a quantidade de artigos científicos tem aumentado exponencialmente. Talvez, portanto, o que merece a nossa reflexão não é uma suposta crise generalizada, mas sim a diminuição do interesse pelas universidades públicas e o consequente aumento de vagas ociosas – aquelas que permanecem vazias por falta de candidatos.

A oferta de cursos de ensino superior cresceu significativamente, sobretudo com a expansão do ensino a distância, intensificando a concorrência no setor. Assim como a enxurrada de publicações científicas de qualidade duvidosa compromete a percepção pública sobre a ciência, a proliferação descontrolada de cursos superiores enfraqueceu o prestígio da universidade como um indicador confiável de qualificação. Hoje, um diploma universitário tem valor de mercado muito menor do que há 30 anos. Como consequência, empregadores passaram a adotar outros critérios para avaliar a competência dos candidatos.

Não se deve perder de vista, portanto, que a função primordial da universidade é ser a melhor fonte de conhecimento, capital humano e de ideias inovadoras – que poderão ser assimilados pela sociedade e usados por empresas, governos etc. para resolver os mais diversos problemas. Essas qualidades surgem naturalmente em cursos de excelência.

É fundamental, no entanto, ter cautela diante de mudanças que buscam atender a demandas frágeis e passageiras da sociedade. Talvez a resposta para a crise de identidade da universidade e para a credibilidade da ciência não esteja em criar soluções mirabolantes, mas em garantir que a Academia volte a exercer seu papel essencial: ser uma curadora criteriosa dos profissionais e das ideias que dela saem.

 

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência.

 

*Artigo originalmente publicado na Revista Questão de Ciência

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