Assisti à entrevista que José Saramago, escritor português vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, concedeu ao programa Roda Viva em 2003, aos 80 anos. Cabe já pontuar a riqueza, acompanhada de uma sábia sobriedade, que uma vida tão longa quanto ativa promove ao ser. Deve-se escutar, e, escutando, gostaria de trazer algumas reflexões que isso me proporcionou.
Primeiro, como modus operandi, abri os comentários no Youtube antes de assistir ao vídeo. O primeiro comentário era de João, dizendo “Gente, parem de criticar os entrevistadores, eles estavam até gaguejando, deviam estar nervosos diante do Saramago”. Comecei a ouvir à entrevista, e o tal gaguejo observado pelo João não me encontrou; pelo contrário, o que me encontrou foram perguntas provocativas e bem formuladas. Talvez aos entrevistadores fosse mais importante o teor de uma pergunta conteudista, do que falar pelas mãos e garantir que a sua performance vocal fosse aprovada pela póstera sociedade do cansaço.
Seguindo propriamente para a sabatina, Saramago foi questionado sobre uma temática muito abordada em seus livros, como em “Ensaio sobre a Cegueira”: a relação entre o que “de fato” é real e os instrumentos utilizados para atingir o real, à lá Caverna de Platão. Saramago acredita muito no poder das palavras. Já escutei ou li em algum lugar que a linguagem delimita aquilo que é inteligível e até vivido por uma civilização. Talvez se no português não existisse a palavra “amor”, ninguém amaria em São Paulo. A resposta do romancista foi muito mais bela: se Romeu tivesse os olhos de uma águia, provavelmente quando olhasse Julieta diria “que pele horrível tem essa mulher”.
A percepção se altera a partir de como algo é observado, e utilizando meus escassos sensores voltei aos comentários do Youtube, extrapolando o de João. Não encontrei um sequer criticando os entrevistadores, conforme registrado pelo nosso amigo. Estranho, não observei gaguejo e nem crítica. Pois bem, se tivesse me atido a fazer um juízo de valor a partir do primeiro estímulo recebido, minha compreensão do objeto entrevista seria bastante diferente, visto que agora discordo do João.
Retornando à entrevista, perguntaram a Saramago sobre uma afirmação sua de 2001, quando disse que crianças devem ler livros que estão acima da sua compreensão imediata. No mesmo instante me lembrei do livro “Terra Sonâmbula”, de Mia Couto, que li como preparatório para o vestibular, um dos únicos, e que me encantou à época. Eu só não conseguia dizer porquê. Saramago se apressou a destacar que poderia dizer exatamente a mesma coisa para os adultos. Então lembrei também do livro “O Tempo e o Cão”, de Maria Rita Kehl, que estou lendo hoje e cujo entendimento tem me desafiado bastante. Já dizia um tal de Clóvis de Barros, revoltadíssimo: “Como assim eu não vou entender? (…) Então p… se o cara escreveu, você só vai entender o que ele escreveu. Você imagina que ele teve que tirar do zero aquela m… toda”.
Lento, difícil, à beira da compreensão, relacionando-se com uma outra pergunta direcionada a Saramago, questionando se o autor tem mais ação sobre o mundo a partir de suas obras, ou a partir de suas manifestações como pessoa nos meios de comunicação. Sua resposta foi de que saberemos se suas obras têm ação sobre o mundo daqui a 30, 40 ou 50 anos, enquanto suas opiniões em jornais e demais meios tem ação imediata, porém são facilmente exauríveis pela velocidade do agora. Tão exauríveis quanto o caótico campo dos comentários no Youtube e de qualquer outra plataforma digital, já que todas agora têm um espaço dedicado às afirmações (não) comunitárias.
Concluo esse texto com uma última reflexão. A postura de Saramago, as perguntas feitas a Saramago, o ambiente de entrevista do Roda Viva, que, com os equipamentos disponíveis em 2003, não omitiam pequenos pigarros, tosses, ecos e outros ruídos, vão na direção contrária de uma gravação performática, e se satisfazem na incerteza, no confronto, na humanidade de uma troca genuína e preocupada com as palavras.
Na instrumentalização do real as palavras e uma reflexão teimosa encontram força, pelo menos enquanto a Meta não nos fornecer olhos de toupeiras.
Gabriel Basso Pereira é engenheiro agrícola formado na Unicamp, analista de geotecnologia em empresa do agronegócio, e entusiasta da dúvida.












