No Dia Mundial do Câncer, celebrado no dia 4 de fevereiro, a campanha global “Unidos pelo Único” (United by Unique), liderada pela União Internacional para o Controle do Câncer, propõe uma ideia difícil de contestar: cuidar da pessoa, não apenas da doença. O problema é que, na prática, esse conceito virou um consenso confortável e pouco transformador.
Hoje, praticamente todas as clínicas, hospitais e consultórios afirmam oferecer um cuidado “centrado no paciente”. O termo aparece em sites, folders e apresentações institucionais. Mas, na vida real, muitas vezes ele se resume à estética do espaço, a um discurso bem ensaiado e a processos rígidos que pouco dialogam com a complexidade da jornada do doente.
Cuidado centrado na pessoa não é ter um ambiente bonito. É garantir acesso, continuidade e responsabilidade. É estar disponível quando o paciente precisa. É entender em que sistema ele está inserido, quais são seus limites financeiros, familiares e emocionais. É aceitar que atrasos acontecem quando alguém está doente. É assumir que a relação não termina ao fim da consulta. Quando isso não existe, o conceito vira apenas um rótulo elegante para um modelo tradicional, impessoal e excludente.
Mas o cuidado realmente centrado na pessoa começa ainda antes disso. Começa pelo profissional de saúde entender o que aquele paciente valoriza, o que ele deseja preservar, quais riscos está disposto a assumir e quais benefícios fazem sentido para sua vida. Não existe decisão verdadeiramente centrada no paciente sem conversa franca sobre prognóstico, incertezas e escolhas difíceis. Ser honesto não é ser brutal, mas calibrar a verdade ao grau de preparo do paciente. Ignorar valores individuais e oferecer decisões padronizadas, ainda que bem-intencionadas, é apenas substituir a biologia pelo marketing. Sem escuta real, o conceito perde o sentido.
Essa distância entre discurso e prática também aparece quando olhamos para a incorporações de tecnologias. Em congressos internacionais como o ASCO e ESMO, vemos avanços impressionantes no uso de inteligência artificial para detecção precoce, interpretação de exames e apoio à decisão clínica. Também novos tratamentos, com surpreendentes mecanismos de ação. Ao mesmo tempo, seguimos convivendo com dificuldades básicas de acesso a exames, diagnóstico oportuno e tratamento, especialmente fora dos grandes centros e na realidade do Sistema Único de Saúde. Inovação sem organização do sistema não melhora o cuidado. Apenas amplia desigualdades.
Outro tema recorrente é o aumento de casos de câncer em pessoas mais jovens. É preciso cuidado para não transformar esse debate em alarmismo. Não há evidência de uma mudança abrupta do perfil etário da doença como um todo. O que existe são sinais consistentes de que estilos de vida pouco saudáveis, sedentarismo, alimentação ultraprocessada, obesidade, consumo excessivo de álcool, tabagismo e privação de sono estão cobrando um preço mais cedo. O erro é tratar isso como curiosidade epidemiológica, quando deveria servir como alerta para a fragilidade das políticas de prevenção.
Uma parcela significativa dos casos de câncer poderia ser evitada com medidas já bem estabelecidas. Ainda assim, prevenção segue sendo o elo mais negligenciado do sistema. Não por falta de evidência científica, mas por falta de prioridade, planejamento e coragem política. Falar de prevenção não é culpar o indivíduo, é criar condições reais para escolhas mais saudáveis e acesso efetivo ao cuidado antes que a doença se instale.
Estar unidos pelo único exige mais do que repetir conceitos corretos. Exige abandonar discursos vazios e enfrentar contradições incômodas. Exige reconhecer que cuidado centrado na pessoa não se mede pela narrativa institucional, mas pelo quanto o sistema se adapta ao paciente, e não o contrário.
O câncer é um desafio coletivo. Mas o cuidado só será verdadeiramente centrado na pessoa quando deixarmos de tratar esse conceito como marketing e passarmos a praticá-lo com responsabilidade.
André Deeke Sasse é oncologista clínico e diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), responsável pelo desenvolvimento do Índice de Priorização para incorporação de tecnologias em oncologia. É fundador e CEO do Grupo SOnHe, coordenador da Oncologia do Hospital Vera Cruz e diretor-presidente da Fundação Roberto Rocha Brito. Atua como preceptor da residência de oncologia clínica da PUC-Campinas e professor do programa de pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp











