Crime de ódio que tem como vítimas mulheres lésbicas, o lesbocídio é uma prática que ainda carece de um olhar mais atento da sociedade brasileira. Não há dados oficiais no País referentes ao número de mortes de mulheres, vítimas de lesbofobia. Mas, segundo levantamento de pesquisadores, trata-se de um crime em crescimento. Neste agosto, mês da visibilidade lésbica, ativistas se organizam para chamar a atenção a esta triste realidade. Um ato está programado para acontecer na Praça Bento Quirino, em frente ao Augusta Bar, no Centro de Campinas, a partir das 16h deste domingo (27).
“É fundamental visibilizar nossa existência para avançarmos nas coletas de dados sobre o lesbocídio e na construção de políticas públicas voltadas a essa questão”, afirma Daniele Cordeiro Motta, organizadora do evento. O Rolezinho da Visibilidade Lésbica, neste domingo, contará com atrações musicais e terá o microfone aberto para manifestações.

Os dados mais robustos no Brasil sobre lesbocídio são de um dossiê organizado pelo Núcleo de Inclusão Social (NIS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2018. No período de 2000 a 2014, as pesquisadoras localizaram 54 casos, menos de metade dos identificados entre 2015 e 2017 (126). O relatório ainda aponta que nos dois primeiros meses de 2018, foram 26 mortes.
Ativistas reivindicam levantamentos mais atualizados sobre o tema, além de uma maior atenção da sociedade para uma prática que causa medo e revolta: o estupro corretivo.
“Muitos homens acham que o estupro é uma ação eficaz para, na visão deles, corrigir mulheres lésbicas, de modo que elas se tornem heterossexuais”, denuncia a professora Marcela Moreira, uma das apoiadoras da causa lésbica. “É nossa saúde sexual e psicológica que está em questão”, reforça Daniele, ressaltando os ideais envolvidos no ato deste domingo, sem deixar a leveza de lado. “Vamos prosear, cantar e gritar juntas as nossas sapatonices”, diz.
Apesar de reconhecer a necessidade de avanço nas ações voltadas às mulheres que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo, Daniele vê também conquistas importantes já alcançadas. “A própria celebração de datas como do dia 19 (orgulho lésbico) e do dia 29 (visibilidade lésbica) já é um avanço”, diz. “Além disso, a criação de leis que combatem a violência contra a mulher também é uma pauta que se cruza com a nossa. Precisamos do nosso espaço, sem deixar de nos agregarmos com outros movimentos.”
Força para encarar o preconceito
Professora de sociologia em escolas do Ensino Médio, em Campinas, Daniele Cordeiro Motta tem 36 anos e há 5 se relaciona com outra mulher em uma união estável. Ela diz que se reconheceu lésbica aos 19 anos. Na ocasião, lembra, não morava mais com os pais, mas, mesmo assim, sofreu preconceito dentro da família.
“Cansei de ouvir que eu era contra Deus e que eu queria ser machão”, conta. “Alguns parentes ainda chegaram a falar que eu precisaria ter apanhado mais na infância.”
Vítima de preconceito inclusive entre seus próprios alunos, Daniele conta que a militância foi fundamental para a sua “sobrevivência”. “Hoje, não tenho mais nenhum problema em me assumir em qualquer ambiente ou situação. A militância me deu força para encarar esses desafios.”











