O Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc) aprovou o registro do presépio da família Curcio como Patrimônio Cultural Imaterial do município. A votação ocorreu em reunião realizada nesta quinta-feira (4).
O parecer técnico conclui que o presépio representa não apenas um ofício familiar transmitido por quatro gerações, mas uma prática cultural profundamente ligada à identidade campineira.
O processo de reconhecimento teve início a partir de um pedido apresentado pelo vereador e presidente da Câmara Municipal, Luiz Rossini, que destacou a importância histórica e afetiva do presépio para a cidade. A solicitação deu origem ao estudo técnico elaborado pela Especialista Cultural Marcela Bonetti, da Secretaria de Cultura e Turismo de Campinas. Foi esse dossiê, fundamentado em pesquisa documental, análise histórica e registro das práticas familiares, que embasou o parecer favorável aprovado pelo Condepacc.
“Receber esse reconhecimento é uma alegria imensa para nós. O presépio sempre foi feito com muito carinho pela nossa família, geração após geração, e saber que esse trabalho agora é valorizado como patrimônio da cidade nos enche de orgulho. É emocionante perceber que aquilo que começou lá atrás, com tanta dedicação, continua vivo no coração das pessoas. Ver esse legado reconhecido oficialmente mostra que todo esforço valeu a pena e nos motiva a seguir cuidando dessa tradição com ainda mais amor”, explica José Curcio.
A tradição teve início em 1906, quando José Curcio, imigrante italiano vindo da Calábria para trabalhar na Companhia Mogiana, montou seu primeiro presépio na cidade. Apenas o Menino Jesus veio pronto de sua terra natal, esculpido em cedro. O restante — cenários, bonecos, figurinos e mecanismos — foi criado em Campinas, misturando memórias da Itália com referências locais. Entre os personagens favoritos de José estavam o bêbado que enchia o copo, o homem do serrote que “serrava” madeira de verdade e o realejo com o periquito que entregava bilhetes, todos movidos por engenhosos sistemas mecânicos.
O ofício de presepeiro acompanhou a família desde 1884, ainda na Calábria, e se consolidou em Campinas como saber artesanal, técnico e criativo que atravessa gerações. Após a morte de José, em 1949, seus filhos Carmela e Paschoal deram continuidade ao trabalho. Na década de 1970, a tradição foi retomada pela nova geração, liderada por Fernando, Pedro e José Curcio Neto, com apoio de Maria de Lourdes, responsável pelos figurinos. Hoje, a quarta geração — representada por Paschoal e Gabriela — mantém viva a tradição centenária.

História de Campinas
Ao longo de mais de um século, o presépio ocupou diversas localizações, sempre acompanhando transformações da cidade. As primeiras exposições ocorriam no porão da casa da família, na av. Senador Saraiva, onde chegavam a atrair filas que se estendiam até o Mercado Municipal. Na década de 1970, passou a integrar oficialmente eventos culturais, como a Semana de Folclore e o Bicentenário de Campinas, sendo exposto na Torre do Castelo com apoio da Prefeitura e da Sanasa. Em 1976, ganhou sede própria na Avenida da Saudade, onde permaneceu por quase cinco décadas.
Reportagens de jornais desde 1940 revelam a relevância simbólica do presépio para a população, que o reconhece como parte da memória afetiva coletiva — um espaço tradicional de visitação no Natal, frequentado por gerações de campineiros. Estimativas de público indicam de 5 a 10 mil visitantes por ano nas décadas de 1980 e 1990. Em 2024, após anos de interrupção, o presépio reabriu sob direção de Paschoal Curcio, agora engenheiro eletricista, que modernizou parte da engrenagem, substituindo componentes antigos por cerca de 20 polias industriais, sem alterar a essência artesanal da obra.
O parecer do Condepacc destaca que o presépio reúne todos os elementos característicos de um patrimônio imaterial: transmissão contínua de saberes, manutenção do ofício, inovação sem ruptura da tradição, forte vínculo afetivo com a comunidade e documentação preservada pela própria família, que guarda recortes, fotos e registros há décadas. Também ressalta o caráter social das apresentações, que sempre foram abertas ao público e tiveram renda destinada a entidades assistenciais.
“Estudar o presépio da família Curcio foi uma experiência profundamente emocionante. Conforme eu avançava na pesquisa, ficava evidente que não se trata apenas de uma peça artesanal, mas de um legado afetivo construído com muito cuidado ao longo de quatro gerações. Encontrar fotos antigas, ouvir relatos da família, compreender a delicadeza dos mecanismos e perceber o quanto esse presépio marcou a memória de tantos campineiros me tocou de verdade”, relembra a Especialista Cultural da Prefeitura de Campinas, Marcela Bonetti.
Reconhecido como patrimônio imaterial no Livro dos Saberes, o presépio da família Curcio reafirma sua importância cultural para Campinas. Mais do que uma obra artesanal, trata-se de um símbolo da memória urbana, da criatividade popular e da capacidade de reinvenção que mantém viva uma tradição há 119 anos.
“Esse registro é, antes de tudo, um gesto de respeito à memória afetiva da nossa cidade. Esse presépio atravessou gerações, acompanhou transformações urbanas, acolheu milhares de visitantes e manteve vivo um ofício artesanal que mistura técnica, criatividade e identidade campineira”, conta a secretária de Cultura e Turismo de Campinas, Alexandra Caprioli. “Defender a memória de Campinas é defender aquilo que forma a nossa identidade como povo”, conta o vereador Luiz Rossini.
Como conhecer o presépio
O tradicional Presépio Mecânico da Família Curcio abre suas portas novamente em dezembro, agora reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial de Campinas pelo Condepacc.
A exposição, que há mais de um século faz parte da memória afetiva dos campineiros, poderá ser visitada nos dias 6, 7, 13, 14, 20, 21, 27 e 28, sempre das 8h às 11h, com entrada gratuita.
O presépio está instalado no prédio da Sanasa, na avenida Ângelo Simões, esquina com a Avenida da Saudade, no bairro Ponte Preta.
“A visitação deste ano tem significado especial: é a primeira após o reconhecimento oficial como patrimônio imaterial, reforçando o valor histórico, cultural e emocional desse presépio que atravessa gerações e segue como referência da tradição natalina campineira”, explica Lúcia Léa Carvalho Curcio ao contar a emoção para a estreia da exposição.









