O Carnaval de 2026 desfilou muito mais do que carros alegóricos e fantasias exuberantes. Trouxe à tona temas, memórias, denúncias e esperanças, inclusive aquelas que a grande imprensa prefere esconder. Em diferentes avenidas do país, das ladeiras históricas aos sambódromos monumentalizados, a política atravessou sambas-enredo, estandartes e refrães de bloco. Não só como entretenimento superficial e cultura mercantilizada, mas também como expressão popular da política do nosso tempo, porque onde há povo, há diversidade; onde há cultura viva, há disputa de sentidos.
No Sambódromo do Anhembi, a Acadêmicos do Tatuapé levou para a avenida um enredo que ecoava a luta pela terra e pela soberania alimentar, dialogando com a trajetória do MST e com a Reforma Agrária Popular. Falar em plantar dignidade não é apenas poesia carnavalesca, mas síntese política cantada por milhares de vozes confrontando a lógica predatória dos monopólios do agronegócio. Terra, pão e liberdade pra cultivar a cultura e a alegria nas lutas populares. A Gaviões da Fiel, com seu enredo “Vozes Ancestrais”, deixou o recado: “se essa terra não tem dono, ela tem guardiões”, vinculando a luta indígena ao futuro da nossa existência.
No Rio de Janeiro, a Unidos de Vila Isabel reafirmou a centralidade da cultura popular negra ao homenagear o legado artístico de Heitor dos Prazeres, conectando música, favela e identidade nacional. Escolas como Império Serrano e Unidos da Tijuca transformaram a passarela em espaço de reconhecimento histórico ao reverenciar escritoras como Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, deslocando para o centro da narrativa oficial vozes que por décadas permaneceram à margem. Da mesma forma, a Acadêmicos de Niterói rompeu o tabu biográfico no Rio com a história de Lula, o “Operário do Brasil”, proclamando que “o amor venceu o medo” e que “tem filho de pobre virando doutor”, reafirmando a passarela como espaço de memória operária e sindical.
A sátira e a ironia deste ano também cumpriram seu papel fundamental: rasgar o véu da hipocrisia. Ao ridicularizar o “cidadão de bem” que prega a moralidade enquanto flerta com a corrupção e o abuso, o Carnaval expõe as contradições dialéticas da nossa elite. O riso, nesse caso, é uma ferramenta de justiça poética que tira a máscara dos falsos profetas e dos vendilhões da fé, revelando a realidade nua e crua sob as camadas de verniz social.
Em Salvador, o Ilê Aiyê reafirmou a África como berço civilizatório e denunciou o racismo estrutural ainda pulsante no Brasil contemporâneo. No Circuito Mãe Hilda Jitolu, blocos como o Carnapelô evocaram a ancestralidade africana, enquanto o Bloco Questão de Gosto exaltou a força simbólica dos caboclos e das matrizes indígenas na formação cultural brasileira. A origem do carnaval se reafirma diante da tentativa de evangelizar, moralizar, domesticar e enlatar a alegria e o grito de quem canta suas mazelas, suas memórias e seus desejos por um mundo ainda tão injusto e desigual.

Em Belo Horizonte, blocos reunidos no Afronta BH, como Orisamba, Afoxé Ògún Dé e Afoxé Ilê Odara, transformaram o cortejo em celebração da diversidade religiosa, cultural e política diante da intolerância que nasce dos dogmas e fundamentalismos de quem se recusa a enxergar diferentes formas de pensar, de se expressar e de existir. A rua mineira ecoou o mesmo recado das avenidas cariocas e paulistas: tradição não é peça de museu, é prática coletiva.
Em Olinda, o Bloco Sem Terra voltou a ocupar as ladeiras históricas, reunindo milhares de pessoas sob bandeiras que misturavam alegria e denúncia social. A presença do MST na folia, longe de politizar uma festividade neutra, reafirma que o povo na rua, festejando, sempre foi ato político na luta por direitos. O samba, ali, não separava festa e reivindicação, mas emergia delas, tal como nos quilombos que se erguiam contra a escravidão séculos atrás.
Há quem prefira esquecer que ocupar a rua é um ato político. O Carnaval é movimento de (re) apropriação dos espaços públicos, uma afirmação coletiva de que a cidade não pertence apenas aos que podem pagar por ela, tampouco dos carros ou dos prédios comerciais. Quando milhares caminham juntos, cantando as mesmas palavras, constrói-se algo que ultrapassa o entretenimento: cria-se solidariedade. E solidariedade é força democrática. Se, por um lado, há quem reclame dos mais de R$85 milhões de verbas públicas destinadas às festividades, por outro é preciso saber que elas movimentaram mais de R$18 bilhões por todo o país.
Apesar das tentativas recorrentes de camarotização da folia, com abadás exclusivos e cordas que separam o povo, e das investidas moralizantes que tentam disciplinar a festa sob discursos de puritanismo e ordem, a mensagem das ruas foi clara: alegria também é subversão. Sorrir alto num país tão desigual é gesto político! Dançar e celebrar, apesar de tudo, é afirmação de existência e resistência!
As fantasias são metáforas poderosas. É a chance de expor, criticar e questionar, a brutalidade da escala 6×1, das moradias precárias, do transporte lotado, do machismo cotidiano, do racismo estrutural e da LGBTQIA+fobia. Fantasiar-se é experimentar outras possibilidades de mundo. É ensaiar futuros.
A tentativa de despolitizar a festa sob o pretexto de evitar polarização ideológica é, em si, uma estratégia política de apagamento e medo. O silenciamento dos temas sociais serve apenas a quem se beneficia de uma sociedade onde bilionários podem cometer crimes sexuais em ilhas remotas, mas a exuberância de corpos marginalizados e explorados, quando livres e alegres, causa espanto. Defender um Carnaval “sem política” é defender um Carnaval sem alma, transformando a maior manifestação cultural do mundo em um desfile artificializado para consumo de luxo e ostentação.
Na Quarta de Cinzas, quase como uma vingança à liberdade dos festejos populares, a hierarquia social é restaurada sob tiros de borracha e spray de pimenta: o povo trabalhador retorna à rotina exaustiva e às comunidades marginalizadas, enquanto a realeza dos camarotes prolonga o feriado em seus resorts e pacotes de ostentação. É o momento em que a dialética se mostra mais cruel, evidenciando que a liberdade da avenida ainda não se traduziu na liberdade do cotidiano.
Com as eleições de 2026 no horizonte, o Carnaval serviu como um termômetro vital para a disputa que se avizinha. O embate entre o espírito de comunidade das ruas e o fascismo disfarçado de ordem e jejum já começou a ser travado na escolha dos enredos e na reação das arquibancadas. A folia deixou claro que existe um Brasil que não aceita mais o autoritarismo como solução, mas que demanda participação ativa e reconhecimento de sua dignidade.
A pergunta que fica, ao guardarmos as fantasias, é se o povo conseguirá transbordar essa energia de ruptura para além do feriado. Iremos às urnas e às praças para pautar uma agenda verdadeiramente popular, ou permitiremos que as práticas de exploração socioeconômica continuem operando nas sombras após o fim do samba? O Carnaval deste ano foi, mais uma vez, um transbordar de desejos e possibilidades.
O desafio agora é transformar esse grito simbólico em projeto político realista. Quem se incomoda com a voz das ruas talvez tema exatamente isso: que o samba vire consciência, que o refrão se transforme em projeto, que a memória cantada se converta em ação política organizada. Que em 2027 possamos cantar marchinhas de comemoração, não de lamento.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo, mestre em Linguagens, Mídia e Arte, doutorando em Psicologia











