Vamos brincar um pouco com algo tão imperceptível como cruel com o transcorrer de nossa idade que é o tempo. Estamos constantemente monitorando a passagem do tempo, desde a espera pela água da chaleira ferver para cozer algo até a observação dos semáforos. A forma como percebemos o tempo geralmente depende da escala temporal envolvida, que varia de minutos a horas, dias ou muito mais. Curiosamente, parece que nós conseguimos estimar a duração de intervalos de tempo muito curtos com notável precisão.
Neurocientistas e psicólogos há muito se interessam pelo estudo da percepção do tempo, pois a precisão temporal serve de base para muitos de nossos comportamentos, desde estratégias de busca de alimento (muito mais primitivo e de sobrevivência) até a execução musical (mais intelectual e integrativo). De um ponto de vista evolutivo, podemos imaginar que, como a presa, é importante calcular quanto tempo resta antes que finalize um determinado evento ou movimento. E, em um exemplo mais “realista”, também podemos imaginar por que é importante ter uma noção precisa do tempo ao tentar atravessar uma rua movimentada.
É preciso usar informações visuais para estimar trajetórias de movimento, mas também é necessário usar experiências passadas (como a velocidade com que se anda ou corre) para estimar a posição futura com segurança. O cenário se torna muito mais complexo quando nossos cérebros tentam estimar o tempo em escalas muito menores. Esse processo envolve múltiplas áreas cerebrais.
Muitos estudos recentes com primatas não humanos encontraram atividade neuronal correlacionada com a percepção do tempo em uma região do córtex parietal chamada LIP (núcleo infraparietal lateral). Esses estudos descobriram que a atividade do LIP aumenta quando um animal está aguardando para realizar uma grande atividade e aumenta ainda mais pouco antes desta atividade propriamente dita.
Um estudo anterior sobre a percepção do tempo, utilizou uma tarefa de realizar um movimento com base em sua própria medição do tempo. Os pesquisadores confirmaram que a atividade do LIP (parâmetro interósseo lateral) estava correlacionada com o movimento, como já havia sido demonstrado em trabalhos anteriores, mas também conseguiram mostrar que a atividade do LIP aumentava de forma constante em testes de maior duração.
Combinando esses resultados com outros, Leon e Shadlen concluíram que a atividade do LIP está relacionada à percepção interna do tempo e que o aumento dessa atividade pode ser o substrato neural de como o cérebro mede o tempo. Mas será que essa é toda a história? Então, por que nossos cérebros percebem a passagem de pequenos intervalos de tempo, na ordem de segundos ou até mesmo sub-segundos?
Uma possível razão é que isso nos ajuda a integrar informações nessas pequenas escalas de tempo, permitindo-nos avaliar como os estímulos sensoriais mudam várias vezes por segundo e acompanhar nossos próprios movimentos e ações.
Se a atividade do córtex inferotemporal lateral (LIP) está causalmente relacionada a esse processo e como outros circuitos neurais estão envolvidos, ainda são questões em aberto. Mas, dadas as implicações filosóficas para a forma como medimos o tempo e como isso se relaciona com nossa percepção de “livre-arbítrio”, não há dúvida de que podemos esperar resultados sempre mais intrigantes neste campo da ciência.
Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.











