Qual vai ser a próxima ocasião festiva de que você vai participar? Um aniversário? Batizado? Formatura? Noivado, casamento, bodas ou chá de bebê? Festa de despedida do amigo que vai para um intercâmbio? Da prima que está voltando? A promoção do colega, que virou analista pleno? Ou da chefa, que se aposentou? Open house da casa nova, conta. Natal, Ano Novo e festa de metas batidas na firma, também!
Qualquer desculpa é válida para buscar alguma recompensa quando acaba o expediente arrastado ao longo da semana, ainda mais quando a rotina vai persistir por meses, anos, décadas. Em “A vida não é útil” (2020), Ailton Krenak provoca a pensar sobre como damos significado à própria vida a partir da construção de uma autobiografia projetada desde a infância, circunscrita a uma realidade modelada pelo produtivismo e pelo consumismo, deixando pouco ou nenhum espaço para a liberdade e a criatividade, a menos que possam servir aos fins de controle utilitarista do neoliberalismo.
A junção de coachings e rotinas de autocontrole, gestão de tempo, organização pessoal e mantras motivacionais que afirmam que tudo acontece por um motivo e que as coisas chegam no tempo certo sustentam uma mistura perversa de inércia e anestesia, compelindo as pessoas a aceitarem um destino fatal, supostamente criado e controlado por forças superiores que estão além da compreensão (e, portanto, de qualquer resistência) humana.
Existem, de fato, “forças superiores” que tendem a moldar e se impor sobre vontades individuais e desejos pessoais – a Igreja, o Estado e o Capital, por exemplo.
Todavia, trata-se de instituições criadas e controladas por pessoas, inseridas em contextos e circunstâncias passíveis de mudanças e que, portanto, longe de possuírem capacidades ou virtudes sobrenaturais, estão, também, buscando viver suas vontades e desejos.
Diante da constante ameaça de tendências ultraconservadoras, como o fascismo e o fundamentalismo religioso, que se impõem pelo controle repressivo de corações, mentes e corpos, viver e celebrar a alegria são, em si, um ato subversivo. Mas é preciso analisar se há, realmente, uma fonte genuína de felicidade nas comemorações, sob o risco de se perder na repetição de padrões socioculturais, quase sempre atrelados à exibição de poder aquisitivo e do status quo, que servem muito mais para validar um comportamento coletivamente uniformizado do que como forma de expressão de identidades subjetivas.
Quando exibir conquistas e comemorações torna-se mais importante ou gratificante do que vivê-las, confirma-se o triunfo da mesmice, da mediocridade, da padronização e da obediência inconsciente diante da vigilância vorazmente exercida na sociedade do desempenho.
O livre arbítrio para trilhar caminhos diferentes dos que são pregados por pastores, life coachs e influenciadores passam a ser vistos como desvios que levam ao pecado, ao fracasso, à corrosão moral.
Pessoas marginalizadas, apesar dos gigantescos esforços para prover a própria sobrevivência, são condicionadas a assumir responsabilidade pela falácia do fracasso individual, que disfarça as raízes estruturais de desigualdades legadas pelo colonialismo, pela escravidão e pela exploração autorizada pela cruz, pela coroa e pela espada.
Em contrapartida, quem herdou os espólios de guerras, genocídios e da predatória lógica de mercantilização da vida, serve como exemplo de coragem, dedicação e superação, estimulando a ostentação do exagero, da exclusividade e da extravagância como emblemas da individualidade fantasiosa da meritocracia.
Na impossibilidade de gastar centenas, milhares ou milhões de dólares em rituais luxuosos de exibição de poder financeiro, as pessoas comuns se rendem à espetacularização da vida cotidiana, de banalidades e trivialidades, da própria privacidade e suas intimidades, movidas pelo desejo de romper com a mesmice enquanto reforçam os padrões e tendências que nos condicionam a repetir ciclos de produção, reprodução, consumo, de novo, de novo e de novo, sem que novidade alguma seja algo além da dissimulação do velho.
Para que a ilusão de premiar a obediência e a alienação passe despercebida, o exagero serve como forma de produzir deslumbramento no expectador, que converte a autoindulgência e o egocentrismo em desejo pela falsa exuberância que testemunha, como se houvesse um passo-a-passo a ser seguido na busca pela felicidade vendida em anúncios patrocinados por empresas que lucram com guerras, trabalho escravo e destruição ambiental.
Entre happy hours, cashback e mansões alugadas, por mais triunfais que possam parecer as vidas artificiais que viralizam nas redes sociais, nos discursos motivacionais das grandes empresas e testemunhos pretensamente comoventes nos altares de igrejas e palanques políticos, a superficialidade de emoções sintéticas e genéricas nunca será suficiente para curar o profundo vazio existencial que aflige a humanidade com cada vez mais intensidade. Pelo menos não até a próxima ressaca.











