Oi Julio, como vai aí no meio das estrelas? Puxa, meu caro, você nos deixou tão cedo, mas acho que o céu não aguentava mais te esperar, não é?
Meu amigo, é tanta coisa para dizer. Gostaria que tivéssemos oportunidade de conversar mais. Eu queria ouvir mais suas histórias, seu entusiasmo pelas galáxias, que você reiterou por exemplo no Fórum do Meio Ambiente no Sesc que ajudei a organizar há alguns anos.
Em primeiro lugar eu queria te agradecer. Foram décadas dedicadas a apresentar o céu para nós, os chamados cidadãos comuns. Sempre com alegria, com aquele brilho nos olhos que só os íntimos das estrelas possuem.
Creio ser esta uma das mais nobres profissões nos duros dias atuais. Profissões? Não acredito que você visse seu ofício como uma profissão. Quando se faz algo com prazer não é profissão, certo?
Sei lá, acho que é missão mesmo, é a tal da conjuminância dos astros que você tão bem conhecia. Estava escrito. Você tinha que estar ali, na Serra das Cabras, abrindo o portal para o infinito.
E dali, meu amigo, você viu tanta coisa. A beleza, a suprema beleza, mas também a capacidade do ser humano, ou de alguns humanos, claro, em interferir no meio ambiente, na natureza tão generosa. E, nesse sentido, em segundo lugar peço desculpas, por todos nós.
Durante anos você protestou contra a perda gradativa de nosso direito ao céu. Com essa ansiedade louca por construir, mudar a paisagem, estamos perdendo o acesso a esse direito humano básico, ver o céu. Pelo excesso de prédios, de construções em geral, e com tudo isso mais iluminação artificial, simplesmente não conseguimos ver mais ali para cima.
E se não nos enxergamos como somos, como uma nanopartícula viajando pelo Universo, a bordo da nossa casa, a Terra, como vamos cuidar dessa nave mãe que nos transporta, nos alimenta, nos dá tudo e, em troca, estamos dando mais poluição, sujeira e, com isso, a transformando radicalmente, sem pensarmos no amanhã?
Peço desculpas, então, por deixarmos a situação chegar onde chegou. Podíamos ter feito mais, não podíamos nos deixar levar por falsos progressismos, falsos bonitos discursos sobre a importância de crescer mais e mais.
Deve ter sido muito triste para você, que amava nos informar sobre as constelações, sobre o brilho único de um cometa, perceber gradualmente o céu limpo ficando cada vez mais distante para todos nós mortais. E, com isso, sem essa perspectiva cósmica, o ser humano ficando mais pobre, com sua vida mais desprovida de sentido.

Pois a humanidade sempre conversou muito com as estrelas (e com planetas e satélites) e tirou muito proveito disso, você sabe disso mais do que ninguém. As estrelas que eram divindades para muitas civilizações também auxiliaram os antigos a se orientarem no espaço terrestre.
Não é preciso nem lembrar de como uma estrela, em especial, é importante para o Cristianismo. A Estrela de Belém, que guiou os Reis Magos até onde estava o Menino Deus.
As estrelas que também ajudaram a guiar as modestas e vulneráveis caravelas, aquelas que dobraram o Cabo da Boa Esperança e se aventuraram a ir “por mares nunca dantes navegados” e “passaram ainda além da Taprobana”, nos versos célebres de Camões.
Mas as estrelas também mudaram concepções e paradigmas, você também sabe disso. Olhando para cima e além, pouco a pouco foi derrubado o entendimento de que a Terra era o centro do Universo. Esse sistema geocêntrico, consolidado por Ptolomeu, era uma justificativa para visões deturpadas sobre a vida em geral.
Emergiram então novos olhares, como os de Galileu Galilei, que enfrentou o geocentrismo arraigado e defendeu o heliocentrismo, ou seja, o sol como o verdadeiro centro do universo. O que não era de fato verdade, hoje sabemos, mas foi um avanço em relação ao que se acreditava.
Nem é preciso dizer que por isso Galileu foi duramente perseguido pela Inquisição, tendo passado seus últimos anos em prisão domiciliar.

Felizmente a ciência avançou, e graças a astrônomos brilhantes como o dinamarquês Tycho Brahe e o alemão Johannes Kepler, novas fronteiras foram superadas e, hoje, sabemos um pouco mais sobre o que é afinal o Universo. Um pouco mais, acho que você concorda com isso. Porque os mistérios continuam, muito ainda há de ser descoberto e desvendado.
O certo é que a cada descoberta, a cada novo planeta descoberto, a cada nova supernova identificada, sabemos que continuamos sendo o que foi dito acima, uma nanopartícula navegando no Universo. E que precisamos cuidar cada vez melhor dessa querida Terra Nave Mãe que nos transporta mas que mostra claros sinais de fadiga.
Para mim, em particular, meu caro Julio, este é seu maior legado. Nos apresentando o lá em cima, para que tenhamos consciência crescente da importância de cuidarmos do aqui embaixo. E nos maravilhando com o céu, com as estrelas, nos embebendo com a beleza da natureza, nos apaixonando por todos os seres vivos, pela teia de relações que permite a vida como conhecemos.
Infelizmente estamos, por nossas ambições, por nossas vaidades, por nosso cinismo, rompendo essa teia de vida. Cada vez mais orgulhosos de tanta tecnologia, de tanta conectividade, mas cada vez mais cegos para o que fazemos na prática, destruindo a relação com o outro, o outro humano e o outro natureza.
De qualquer modo, só tenho mesmo que agradecer, pelas horas a fio, incansável nas noites geladas na Estrada do Capricórnio, que endereço mais lindo! Você sempre falou a língua das estrelas e poderá agora brilhar ainda mais de amor por elas. Quando olharmos para o céu, agora vamos ver você com o sorriso eterno. Grande abraço, vamos fazer o possível para que o Observatório Jean Nicolini continue firme e forte, honrando o seu trabalho impagável!
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com











