Do macro ao micro, do céu à terra. Campinas parece não ter limites. A cidade que completa 250 anos no próximo dia 14 de julho não cessa de inovar e surpreender. Para um e outro lado.
São incontáveis as contribuições de Campinas para o Brasil e para o mundo e elas não param de acontecer. Só para começar, grande parte do que o brasileiro come ou bebe tem origem no Instituto Agronômico, exemplo de dedicação à pesquisa e que merece muito maior atenção do poder público e sociedade em geral.
A vocação para a pesquisa é nítida na história da cidade, sendo aqui, e no próprio Instituto Agronômico, que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) fez sua primeira Reunião Anual, em 1949. Depois disso já foram outras três Reuniões Anuais da SBPC em Campinas, cidade que mais recebeu o evento depois de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, em uma clara demonstração de como tem sido território para a liberdade na ciência, tecnologia e inovação, o que nem sempre agrada aos obscurantistas. Tanto que a Reunião de 1982, na Unicamp, foi a mais vigiada pelo regime militar, que inclusive montou a Operação Guarani e mobilizou vários espiões.
De forma intimamente ligada à ciência, Campinas também tem contribuído para o Brasil com soluções para diversos desafios em termos de saúde. O Centro Boldrini, por exemplo, tornou-se referência nacional e internacional em oncologia e hematologia pediátrica. Do mesmo modo, a Sobrapar, no caso da reabilitação de pessoas com deformidades craniofaciais.
A Casa da Criança Paralítica, que acaba de completar 70 anos, também contribui para novos projetos de vida, em termos dos cuidados com pessoas com deficiência. E o que falar do Cândido Ferreira, que foi fundamental no movimento da reforma psiquiátrica e que é protagonista em área considerada modelo em saúde mental pela Organização Mundial da Saúde, pelos cuidados observando a plenitude dos direitos humanos?
Na mesma linha, não é possível esquecer que Campinas foi uma das pioneiras no Brasil em buscar uma atenção humana, integral, desprovida de preconceitos, no tratamento das vítimas do HIV-AIDS. Nesse sentido é necessário ressaltar o trabalho histórico do Centro Corsini, e também o trabalho essencial do Dr.Carmino de Souza na criação do Hemocentro da Unicamp e, depois, atuando de forma estadual, em parceria com outros especialistas, na estruturação de uma rede que modernizou as transfusões, interrompendo a transmissão por essa via do HIV-AIDS e outras patologias pelo sangue.
Como uma consequência natural, dessa vocação para a pesquisa e preocupação histórica com a saúde, Campinas não é por acaso uma das cidades que mais contribuíram no processo histórico de construção do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse sentido a participação da Unicamp é determinante, com vários nomes ligados à luta que culminou na criação do SUS pela Constituição Cidadã de 5 de outubro de 1988.
Direitos de cidadania, direito de toda cidadã e cidadão brasileiro à assistência à saúde. Esta é a grande conquista civilizatória expressa pelo SUS, que mostrou mais uma vez o seu papel vital, de vida, na pandemia de Covid-19. Não fosse o SUS, o Brasil teria passado por uma tragédia ainda maior, muito maior, do que passou, em um momento em que o país era dirigido por um governo negacionista e anti-vida.
Pois a história de construção do SUS, uma das maiores contribuições de Campinas para o Brasil, é o tema do livro “A epopeia do SUS”, que será lançado nesta quinta-feira, 11 de julho, a partir das 18 horas, na Livraria Candeeiro, no Cambuí (rua Dr.Vieira Bueno, 170). O livro do qual, com muita honra, sou um dos co-autores, ao lado dos médicos Dr. Carmino de Souza e Dr. José Enio Servilha Duarte e da advogada Dra. Lenir Santos, é um tributo a todos que deram sua contribuição à construção do SUS.
E também não deixa de ser uma homenagem à própria Campinas, que completará seus dois séculos e meio três dias depois. A cidade que não cansa de ousar e que agora, com projetos como o Sirius e o Orion, mira o futuro a partir de tudo o que a ciência quântica ainda pode oferecer e, claro, ainda tem muito desafio e contradição a superar.
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com











