A notícia é muito preocupante. Os estoques da maior parte dos tipos de sangue no Hemocentro da Unicamp estão em nível crítico. O motivo é a queda sazonal nas doações. Ações especiais estão programadas em cidades da região visando incrementar as coletas, por meio de postos móveis, e, com isso, garantir o suprimento necessário.
É muito importante que os estoques sejam repostos o mais rápido possível e que sejam mantidos sempre no nível adequado. São vidas em jogo.
Faz parte do senso comum afirmar que a doação de sangue é um ato de amor, de solidariedade e altruísmo. E é mesmo, um ato nobre, que expressa a disposição do ser humano em ajudar o outro. O mesmo no caso da doação de órgãos, gesto que tem garantido a continuidade da vida e com qualidade para muitas pessoas.
Há alguns condicionantes para a doação. A pessoa portadora de algumas doenças, como sífilis, malária ou doenças de chagas, e também pessoas com sintomas respiratórios, grávidas, puérperas ou mulheres amamentando não podem doar.
Também há limites de idade. Podem doar pessoas entre 18 e 69 anos. Jovens de 16 ou 17 anos podem doar com consentimento dos pais. Idosos acima de 60 que nunca doaram também não podem fazer pela primeira vez. O doador precisa ter mais que 50 quilos de peso. Há outras restrições e o candidato ou a candidata a doar deve buscar informações para verificar a sua condição.
Mesmo com esses condicionantes, é possível aumentar de forma considerável a comunidade de doadores no país. No Brasil, menos de 2% da população doam sangue. Essa proporção representa um contingente de cerca de 3 milhões de pessoas, o que é um número muito baixo considerando a população total. São 14 ou 15 brasileiros e brasileiras em cada 1.000 fazendo doação.
O Brasil tem hoje mais de 2 mil unidades de coleta de sangue, entre hemocentros, hemonúcleos e agências de transfusão, entre outros serviços. É uma rede vasta, perfeitamente apta a receber mais doações.
A doação de sangue precisa, enfim, ser cada vez mais incentivada no Brasil.
No nosso país, é necessário lembrar que a doação e as transfusões de sangue tomaram um rumo diferente com o advento do Sistema Único de Saúde (SUS), criado pela Constituição Federal de 5 de outubro de 1988.
Antes do SUS e da Constituição Cidadã, como é conhecida, era possível remunerar pela doação de sangue no Brasil. Existia um comércio de sangue no país. Essa prática passou a ser proibida. Um dos nomes mais relevante do movimento da reforma sanitária, que está na origem da criação do SUS, o médico sanitarista Sergio Arouca, ex-professor da Unicamp e ex-presidente da Fiocruz, chegou a comentar que esta proibição se tornou uma das principais conquistas derivadas do novo texto constitucional. Uma conquista civilizatória.
A luta pela criação do SUS aconteceu, de fato, de modo concomitante com grandes transformações ocorridas nas políticas e práticas relacionadas ao sangue no país. A criação de uma sólida rede pública de coleta e transfusão de sangue, através da instalação de hemocentros e outras unidades, teve um grande impulso na primeira metade da década de 1980.
Naquele momento estava em curso o início da pandemia da AIDS e muitos casos de transmissão do HIV ocorriam através de transfusões de sangue. Era fundamental, então, uma ação firme do sistema de saúde pública para interromper a ocorrência de AIDS e outras doenças por meio das transfusões.
É neste cenário que nascem hemocentros como o da Unicamp, neste caso sob a liderança do médico hematologista Carmino de Souza.
Em função de seu trabalho na criação e estruturação do Hemocentro, o médico foi convidado pelo então secretário estadual de Saúde, José Aristodemo Pinotti, para coordenar o Programa de Sangue do Estado de São Paulo, que se tornou uma referência nacional pela descentralização de serviços através de uma hemorrede com equipamentos e profissionais altamente capacitados. As hemorredes espalhadas hoje pelo Brasil, funcionando sob o âmbito do SUS, fazem um rígido controle de todo o processo, desde a doação até as transfusões, justamente para prevenir a transmissão de doenças.
Ex-reitor da Unicamp, Pinotti também solicitou na época que o Programa de Sangue do Estado de São Paulo implantasse uma forte campanha de doação voluntária de sangue, reforçando o que dizia o novo texto constitucional. Isso foi feito e os hemocentros como o da Unicamp têm implementado constantes campanhas para fomentar a doação.
Ato de amor e solidariedade, sim, mas também gesto de cidadania, de reconhecimento do direito de todo ser humano a ter uma vida digna e saudável, o que passa eventualmente por receber o sangue coletado em doação.
O Hemocentro da Unicamp está localizado na Rua Carlos Chagas, 480, na Cidade Universitária, Distrito de Barão Geraldo. As doações podem ser feitas de segunda a sábado, das 7h30 às 15 horas, inclusive nos feriados. Postos de coleta também funcionam no Hospital Municipal Mário Gatti de Campinas, no Hospital Estadual de Sumaré e Hemonúcleo de Piracicaba. Mais informações no site do Hemocentro: www.hemocentro.unicamp.br
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com











