“A tecnologia deveria ser um direito universal, mas, sobretudo, uma ferramenta de inclusão de meninas e mulheres periféricas no mundo da ciência, do conhecimento e da inovação”, defende Isa da Firmeza, jovem campineira que atua pela inclusão e apoio a mulheres ribeirinhas da Amazônia, sertanejas, caiçaras, meninas das favelas e territórios urbanos na área STEAM — sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática.
Nascida em 2000, Isabela Gonçalves, conhecida como Isa da Firmeza, viu a internet chegar à sua comunidade em Campinas somente aos 18 anos. Cresceu na quebrada, enfrentou situações de abuso e racismo, mas sempre teve o apoio incondicional dos pais, militantes da Pastoral Operária.
“Carrego os princípios da minha quebrada em cada passo que dou”, afirma.
Hoje, Isa é líder do Rise Up Brasil e atua pela inclusão de meninas e mulheres negras na tecnologia. Coordenadora do Firmeza Hub e ex-coordenadora do Minas em Tech, na Casa Hacker, ela apoia iniciativas como Instituto Marielle Franco, Criola ONG, Coalizão Negra por Direitos e Pacto pela Democracia.
Recentemente, palestrou no American Girls Can Code, da ONU, e participou de reuniões com ministérios sobre o Projeto de Lei 840/2021, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Da quebrada
Filha do auxiliar de serviços gerais Aparecido e da cozinheira Elza, Isa viu os pais se alfabetizarem já adultos, após o nascimento de seus irmãos mais novos, Luís e Pedro, este último diagnosticado com autismo. A família, que vivia em uma casa de três cômodos com 11 pessoas, deu apoio a Isa quando, na adolescência, ela passou por um abuso sexual.
“Meu pai me levou até a Delegacia da Mulher e registrou o boletim de ocorrência. Ele nunca duvidou de mim,” relembra.
Logo após o ocorrido, Isa ingressou no grêmio escolar e, aos 15 anos, foi a única aluna selecionada para um programa da Unicamp voltado ao Ensino Fundamental, onde entrou pela primeira vez como aluna. “Foi uma virada de chave na minha vida,” diz ela, lembrando a sensação de pertencimento no campus.
No movimento secundarista, Isa se engajou nas ocupações contra a reforma do ensino médio, e escreveu sobre o tema para uma revista científica. Desde então, seu ativismo se expandiu para o movimento negro e a cultura hip hop. Ela conseguiu um estágio em uma startup de educação, onde produziu feiras de ciências.
Firmeza Hub
A transformação em Isa da Firmeza veio com sua aprovação na Unicamp, no qual fundou o Firmeza Hub, uma plataforma para ativação de tecnologias criativas.
“A Firmeza é uma plataforma para ativação de tecnologias criativas nas cenas urbanas de norte a sul do país,” explica.
Após um ano, deixou a Unicamp e mudou-se para a Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ganhou uma bolsa de mérito na ESPM e, desde então, reside no Rio de Janeiro.
No Rio, mergulhou no afroempreendedorismo e trabalhou no Instituto Marielle Franco, onde conheceu a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. Durante a pandemia, atuou no Pacto pela Democracia e em campanhas sociais. Participou de eventos acadêmicos e da campanha “Tem Gente com Fome”. Também foi aluna do curso de extensão em Cultura e Política na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Isa também produz congressos acadêmicos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Foi por intermédio da reitora da UERJ, Gulnar Azevedo e Silva, que Isa recebeu o convite para participar do evento “Mais Meninas e Mulheres na Ciência: por uma agenda de equidade e interseccionalidade”, com a ministra de Ciência e Tecnologia, Luciana Santos. Isa também falou em eventos como LatinoWare, American Girls Can Code e Favela.Lab. Em todas essas atividades, ela incorpora o advocacy como estratégia-chave para promover as mudanças que deseja ver.
Voz a mulheres na ciência e tecnologia
Atualmente, Isa trabalha na criação da Coalizão pela Genialidade Feminina, projeto que visa dar visibilidade a mulheres criadoras de conhecimento no Brasil. A iniciativa monitora políticas públicas para mulheres na educação básica, atuando em propostas como o PL 840/2021, em que Isa contribuiu com sugestões de modificação no texto.
“Quero estar na execução de políticas públicas, na mobilização da militância por causas, na ativação das pautas que me movem e me trouxeram até aqui”, afirma.
Isa também trabalha na Nave do Conhecimento da Penha, que oferece acesso a tecnologia e cultura gamer para comunidades vulneráveis, e participa do Movimento Feminino de Arquibancada, que combate machismo e racismo nos estádios.
Rise Up
Pelo programa Rise Up, Isa se conecta a uma rede global de 800 líderes que promovem justiça e equidade de gênero. Desde 2009, o programa conquistou mais de 185 novas leis e políticas, beneficiando milhões de pessoas.
A Rise Up seleciona líderes globais focados em advocacy para mudanças locais sustentáveis, e a aceleração de lideranças que firmam parceria com mulheres, meninas e aliados que estão transformando suas comunidades e países como parte de um movimento global por justiça e equidade.











