Foi uma novidade quando, por volta de 2009, meu avô apareceu em casa com uma máquina de escrever. A primeira coisa que fez foi mostrá-la a mim, pois, em casa, eu era considerado o conhecedor das tecnologias — embora ninguém soubesse exatamente como elas funcionavam. Ele encontrou a máquina, ainda dentro do estojo, abandonada em um local de descarte de lixo, e achou interessante aquele “computador”, segundo ele. Sempre esperançoso de extrair valor daquilo que fora rejeitado, levava para casa objetos que ninguém mais queria por causa do desuso.
Coube a mim explicar que aquilo não era um computador.
Meu avô morou quase metade da vida no meio rural, aprendeu a ler e escrever em casa e não conhecia muito bem as tecnologias atuais — muito menos aquilo que um dia fora instrumento de prestígio profissional.
Arrisquei-me a datilografar naquela máquina; afinal, nunca havia usado uma, embora já estivesse familiarizado com o verdadeiro computador. Escrever ali poderia me inspirar mais, sobretudo ao pensar que grandes escritores do século XX desenvolveram seus trabalhos naquele equipamento de teclas barulhentas e movimentos desengonçados.
Em menos de uma semana, porém, eu já estava entediado e levei a máquina para o local onde ficavam os objetos rejeitados pelas pessoas de fora e também da minha família: o baú de “lixaiada”, expressão usada por minha avó para designar aquela grande caixa de madeira que meu avô insistia em preservar.
Creio que meu desinteresse pela máquina de escrever decorria não apenas de sua obsolescência para minha época, mas também da dificuldade que eu tinha para datilografar. Eu não era habilidoso nem rápido naquele teclado mecânico, como alguém que tivesse feito um curso de datilografia.
Hoje parece coisa de outro mundo, mas houve uma época em que possuir um curso de datilografia tornava a pessoa candidata favorita aos melhores empregos.
Era uma formação disputada e altamente valorizada no mercado de trabalho, assim como foi a informática em minha geração. Agora, nem sei ao certo o que seremos com o advento da inteligência artificial.
Sempre que trago à lembrança a técnica da datilografia, percebo a imensidão do orgulho daqueles que realizaram o curso e a saudade de um tempo em que possuir um diploma era símbolo de status profissional.
Em Campinas, algumas instituições ficaram na memória da cidade por oferecerem aquele curso tão desejado entre as décadas de 1960 e 1980. Fazer datilografia na Escola Olivetti, situada no Edifício Catedral, na Avenida Francisco Glicério, era o sonho de muita gente e garantia quase certa de inserção no mercado de trabalho.

Outra instituição que despertava saudade nos eternos datilógrafos era o Instituto Popular Humberto de Campos, na Rua Irmã Serafina. Também se tornou referência o SENAC, que funcionou em alguns endereços da região central e hoje se localiza na Rua Sacramento.

Se estudar datilografia já era o máximo, imagine ter uma máquina de escrever em casa. Por muito tempo, antes de ter condições, desejei possuir um computador e creio que aquelas pessoas que não podiam ter uma máquina também sonhavam com o dia em que pudessem praticar na comodidade de seus lares, musicando o cômodo com a batida das teclas e o zunido do carro.
A datilografia foi guardada no baú do tempo, assim como a máquina que meu avô trouxe acabou esquecida em seu velho baú — e nem sei que fim levou. A passagem do tempo provoca esses sepultamentos silenciosos, sobretudo para aqueles que ainda hoje guardam seus diplomas como símbolo de uma época que, para eles, permanece gloriosa.
Alexandre Campanhola é produtor de conteúdo, responsável pela página Campinas, Meu Amor, dedicada a manter viva a memória e a história da cidade











