Rara leitora, raro leitor, todos temos contas a pagar! E para saldar nossos débitos, tentamos inventar muitas formas de receita. Não sei se é o caso da icônica banda de rock Kiss, que anunciou que pretende lançar, até 2027, uma turnê de shows nos quais quem apareceria no palco seriam não os próprios músicos, mas seus avatares. Talvez hoje este fato nos pegue de surpresa e nos reserve alguma repulsa. Mas para a geração que está vindo, não há nada de estranho nisso. O real e o “virtual” se misturam, não há um limite específico entre os dois.
Nós, humanos, operamos já com um entendimento próprio da realidade. O que vemos, o que percebemos, não é exatamente como o mundo é, mas como conseguimos, através de nossos sentidos e órgãos, a apreendê-lo.
Esse momento, em que enxergamos, ouvimos, sentimos, é o momento de operação de uma grande “mentira” por parte do nosso cérebro. O filósofo Nietzsche já desvelava esse instante mesmo antes de qualquer experimento científico.
Estamos caminhando para novas formas de existência, de uma segunda transformação da realidade, já dentro dessa imagem que fazemos da realidade, do real.
Os “mestres da suspeita” (Marx, Nietzsche e Freud) já mostraram que a percepção da realidade é apenas uma captação seguida de uma assimilação (tudo são impulsos elétricos traduzidos). E nos levantaram ao entendimento, cada um ao modo suo, de que a nossa realidade verdadeira é muito mais profunda do que a percebemos.
Uma mesa ou um produto qualquer não é um simples objeto, mas deve ser analisada através relações de classes que fizeram com que ela fosse produzida (Marx); o que vemos, não é o mundo como ele é, mas como conseguimos percebê-lo (Nietzsche); e Freud, por sua vez, nos mostra que somos guiados e tomamos muitas atitudes baseados em nossa subconsciência, a parte de nós que muitas vezes pouco tem tem de racional.
E isso tudo, no caldeirão da humanidade, vai formando quem somos como indivíduos e sociedades.
Walter Benjamin, o famoso pensador alemão, escreveu sobre a perda da áurea das obras de arte na época em que elas já podiam ser reproduzidas.
Imaginem agora como ele ficaria surpreso ao verificar que até o próprio artista pode ser reproduzido.
Gustavo Gumiero é Doutor em Sociologia (Unicamp) e Especialista em Antigo Testamento – gustavogumiero.com.br – @gustavogumiero






