Lugar é uma concepção compreensiva da geografia, o conceito pode ser ligado à afetividade, um espaço percebido pelas relações humanas, desde muito cedo construímos essa relações. Um exemplo poético dessas percepções é a canção de Arlindo Cruz onde ele descreve Madureira como o seu lugar e nos encanta com os afetos que cercam o bairro. É quase um abraço em quem vem de fora.
O meu lugar
É cercado de luta e suor
Esperança num mundo melhor
E cerveja pra comemorar
O meu lugar
Tem seus mitos e seres de luz
É bem perto de Osvaldo Cruz
Cascadura, Vaz Lobo e Irajá
O meu lugar
É sorriso é paz e prazer
O seu nome é doce dizer
Madureira, lá lai
De um tempo pra cá, tenho exercitado tentar perceber as afetividades do meu lugar, sempre morei na mesma comunidade e às vezes é difícil ver afeto em ações que parecem tão comuns como dizer “bom dia” ao vizinho que vemos todos os dias e realmente desejar que ele tenha um dia bom.
Lembro que quando era criança quase ninguém tinha celular, os dias que a energia elétrica caia todo mundo saía pra fora, a noite era o melhor momento para brincar de esconde-esconde, as mães colocavam as cadeiras nas calçadas e iam conversar sobre qualquer coisa, por um momento a novela era esquecida e não importava tanto o que aconteceria com o vilão ou o mocinho da trama, mas quando a luz voltava as crianças erguiam o coro triste “ahhhh”.
As relações que construímos inconscientemente contribuem para a formação de cada um, os vínculos estabelecidos fortalecem o afeto aos “nossos lugares” e constroem uma comunidade (concordância, conceito e harmonia) através do cuidado uns com os outros.
Quando olhamos de fora essas relações ficam ainda mais nítidas, um dia desses no ponto de ônibus de um bairro diferente do meu, uma senhora começou a comentar sobre o neto (criança com aproximadamente 6 anos): “ Ângelo – nome fictício- está terrível!” Disse que o menino estava dando trabalho em casa, falava muito palavrão e estava desrespeitando todo mundo. Comentou que foi à padaria e uma mulher que ela nem conhecia se dirigiu ao neto e perguntou se o comportamento dele tinha melhorado.
Enquanto o ônibus não chegava, começaram com o sermão em cima do menino, o vizinho da frente, de cima, de baixo e até quem estava voltando do bar com o refrigerante na sacola parou para comentar; “todo dia, quando dá três horas e vejo o Ângelo na rua, eu mando ele pra casa dona Maria – nome fictício- ele não gosta não, mas me obedece”.
Um dos conhecidos chamou o menino e disse “ você é inteligente, tem que parar com isso”. Com um olhar desconfiado e sem dizer nada, a criança foi para trás do ponto, achou uma ripa e começou a brincar. Eles são a aldeia criando essa criança- pensei comigo.
Assim que comecei a contar histórias conheci esse provérbio de origem africana “é preciso uma aldeia para se criar uma criança”. A interação com toda a comunidade deve contribuir para que os pequenos cresçam (no melhor dos mundos) num ambiente saudável.
Muitos pais imaginam que as referências para os filhos podem ser manipuladas e escolhidas, mas é muito difícil que isso aconteça porque as crianças recebem mensagens de todos os lugares. Isso me faz acreditar que temos que nos questionar em conjunto: como estamos construindo nossas aldeias?

Majori Silva, 22 anos, é escritora e lidera um coletivo na gestão de uma biblioteca comunitária











