As manifestações antidemocráticas logo após a vitória de Luis Inácio Lula da Silva na disputa pela presidência do Brasil, no último domingo, mostram que haverá sérios obstáculos à legitimação dos resultados das urnas por parte de grupos de oposição e, mais ainda, na soma de esforços e busca pelo consenso nas políticas públicas urgentes para a recuperação econômica, social e política do nosso país.
Marcado pela disputa midiática repleta de fake news, discurso de ódio vendido como liberdade de expressão, chantagem e coerção de trabalhadores e trabalhadoras e até terrorismo psicológico de pastores e empresários da indústria da fé, o pleito eleitoral segue sendo esgarçado e questionado, de forma agressiva, por quem não aceita princípios básicos da democracia – incluindo o presidente em exercício, derrotado pela insatisfação e reprovação da maioria dos eleitores e eleitoras do Brasil.
Apesar dos fracassos que se acumulam na gestão do governo federal nos últimos anos, o ressentimento de grande parte da população brasileira continua alimentando um sentimento visceral de oposição a qualquer governo dito de esquerda, mais social e progressista, e tudo que ele representaria – a verdadeira agenda proposta e, também, os delírios fantasiosos criados por distorções e mentiras.
Para o psicanalista Dr. Christian Dunker, professor da USP, boa parte das pessoas que permanecem fieis ao bolsonarismo mais radical (extremista e antidemocrático) exercem sua cidadania de forma punitiva, direcionando suas insatisfações a um partido, um político ou a um grupo ao qual atribuem seus fracassos e frustrações, ainda que não haja correlação real ou racional entre as partes.
Em outras palavras: durante os governos Lula/Dilma (PT), houve uma considerável ascensão socioeconômica de pessoas mais pobres, com a conquista de direitos e garantias básicas de que a classe média já usufruía, como acesso à educação, saúde, moradia, transporte e alimentação. O sentimento de parte da classe média, diante dessa situação, não foi o de comemorar as conquistas das pessoas mais vulneráveis, mas de se sentirem menos importantes ou mesmo traídas por não terem percebido uma melhora tão significativa em suas vidas – ainda que tenham visto seu poder aquisitivo aumentar, permitindo comprar casa própria, trocar de carro, fazer faculdade, viajar para o exterior, abrir uma empresa etc.
Com a redução da miséria e o modesto crescimento econômico de pessoas mais pobres, a classe média passou a perceber-se mais próxima da base da pirâmide social e ainda mais distante do topo, onde estão as pessoas ricas, que continuam enriquecendo não importa a orientação político-partidária de quem governa o país. Embora isso não tenha provocado prejuízo de fato aos que continuam acumulando privilégios em relação aos mais pobres, subordinados aos desejos dos mais ricos, o ódio latente entre os insatisfeitos foi direcionado para separar pessoas que deveriam somar esforços para reivindicar as pautas comuns.
Ao mesmo tempo, quando finalmente perceberam que não estavam mais se beneficiando das práticas ilícitas que, por séculos, favoreceram os grupos dominantes, se viraram ferozmente contra uma ideia abstrata de genérica de corrupção, manifestando sua indignação de forma bastante seletiva, encarando o problema como uma desordem moral, ao invés de percebê-la como um vício político estrutural.
Cada vez mais distantes das conquistas das décadas passadas, em grande parte corroídas nos últimos anos, ainda afetados pelos transtornos da pandemia e pela intensificação da exploração neoliberal, tomados pelo fanatismo e pela intolerância, grupos que flertam com o fascismo se iludem ao reivindicar medidas autoritárias e destrutivas que trariam prejuízos inclusive a si próprios, alimentados pelo rancor na luta egoísta pelo extermínio do outro ao invés da proteção, do acolhimento e da cooperação entre todos.
As mentiras e a manipulação, principalmente nas redes sociais e nas igrejas, são combustível para essa reação explosiva. Afinal, o ódio nasce da negação irracional da realidade. Ao invés de combater a fome, o desemprego e a precarização do trabalho, a violência, a destruição ambiental, as milícias do narcotráfico, a corrupção público-privada, o desmonte da educação, da saúde e da cultura, o rancor leva ao combate de inimigos imaginários – comunismo, ditadura gay, feminismo abortista, fechamento de igrejas, invasão de casas e tantos outros delírios que não encontram correspondência no mundo real, fora da esquizofrenia voluntária pregada e compartilhada pelos fundamentalistas.
Longe de se manifestar como sintoma aleatório, essa preferência pela ilusão é característica não só da negação da realidade, mas, de forma perigosa, é estimulada por estrategistas da psicopolítica para levar à materialização do caos, da violência e dos conflitos que justificam o abuso do poder por lideranças autoritárias (em nome de Deus, da ordem, da tradição, da família), enquanto são usadas como desculpa para justificar as frustrações e a insatisfação pessoal de indivíduos egocêntricos, incapazes de analisar a sociedade como um conjunto de sujeitos diversos e relações complexas, coletivas e articuladas.
Para enfrentar e resolver problemas reais, que continuam castigando e vitimando pessoas honestas e trabalhadoras, crianças, idosos, cidadãos e cidadãs dia e noite, é preciso despertar desse pesadelo de alienação e ressentimento, para pensar e agir com clareza em respeito à vida, à democracia, à dignidade, à liberdade e à felicidade.
Luis Felipe Valle é professor universitário, geógrafo e mestre em linguagens, mídia e arte.











