Neste último mês de outubro tive a oportunidade de participar como conferencista e pesquisador de um Congresso do grupo euroasiático de oncologia e hematologia em Istambul na Turquia. Por dois anos este evento, assim como a grande maioria dos eventos e devido a pandemia do SarsCov2, não pode ser realizado presencialmente. Felizmente, o arrefecimento da pandemia permitiu, após três anos, que pudéssemos nos reunir novamente.
Interessante deste evento, independentemente de seu conteúdo técnico e científico, é o seu contexto geopolítico. Mesmo sendo um Congresso relativamente pequeno no número de participantes quando comparado aos congressos americanos, europeus e mesmo o nosso brasileiro, que colocam números muito grandes de profissionais de todo o mundo colaborando e intercambiando ideias e projetos, este evento eurasiático, contempla cerca de 500 participantes, a maioria médicos, e atende mais de 30 países principalmente de uma região do mundo muito pouco conhecida por nós brasileiros. São dezenas de pequenos países, principalmente do oriente médio, com forte liderança da Turquia e apoio europeu e americano, que participam e fazem deste momento uma rica integração científica e cultural de extrema relevância.
É interessante verificar como colegas de países tão diferentes e muitas vezes que vivem em constante conflagração, estão juntos promovendo a atualização e muitas vezes desenvolvendo projetos conjuntos de trabalho e de investigação. Neste evento fica claro que os povos, os profissionais, os cientistas e os professores, enfim, a sociedade, querem viver pacificamente e produzir informações e dados que possam contribuir para a saúde e o bem-estar de seus povos.
A cooperação entre as instituições de ensino e pesquisa, com interesses dos pesquisadores, geram propostas de trabalho que ultrapassam qualquer diferença cultural e política entre os povos. Fico pensando e tenho a convicção que a paz no mundo passa pela educação e pela ciência. Os envolvidos nestas atividades buscam sempre a aproximação e a mútua cooperação. De maneira mais geral e sistêmica, podemos dizer que ninguém faz mais nada sozinho.
Vimos durante a pandemia que, o sucesso no enfrentamento desta grave crise sanitária, a mais grave em 100 anos, só foi possível porque profissionais de saúde, professores e cientistas de todo o mundo trabalharam juntos e conseguiram em tempo recorde, impensável no início da pandemia, vacinas ativas e salvadoras em três plataformas diferentes e que foram certamente, responsáveis pelo arrefecimento e redução da gravidade da Covid-19.
Vimos ainda, laboratórios de genômica em poucas horas ou dias, encontrarem e descreverem variantes que orientaram as ações no campo da epidemiologia, farmacologia, produção de imunobiológicos e da clínica. Vimos as Universidades, Institutos de pesquisas e casas farmacêuticas trabalharem duramente para o desenvolvimento de fármacos e imunobiológicos que se associavam as medidas convencionais já em uso com ação terapêutica salvadora, principalmente, nos grupos de pacientes mais vulneráveis.
Os institutos e fundações de fomento à pesquisa de todo o mundo e aqui destaco a nossa Fapesp, alocaram importante volume de recursos, inclusive em pesquisas clínicas nas várias fases de desenvolvimento, para acelerar os resultados e a disponibilização de produtos e serviços no enfrentamento da pandemia.
Vimos a notória participação no Brasil do Instituto Butantan e da Fiocruz, trazerem soluções rápidas através de seu próprio trabalho e de cooperações internacionais. Portanto, a vitória foi da ciência e a cooperação científica neste mundo “pequeno” e globalizado permitiu que pudéssemos avançar de maneira segura neste enfrentamento. Assim, vemos que este modelo deve prevalecer e evoluir acentuadamente nos próximos anos permitindo que vários problemas de saúde pública nas mais diversas áreas do conhecimento, possam e devam ser enfrentados através da estreita cooperação entre as instituições e seus pesquisadores.
Em todas as instituições por onde pude exercer cargos de liderança e gestão, sempre disse que a palavra de ordem deve ser “cooperação”. Impressionante como, trabalhando juntos, potencializamos resultados e informações relevantes.
No Brasil, aparentemente isolado geograficamente em relação ao primeiro mundo e pela língua (a língua da ciência é primordialmente a inglesa), vem se inserindo neste mundo da ciência de maneira bastante ativa e honrosa. É certo que as redes mundiais de comunicação, as bases de dados que permitem que as informações circulem rapidamente, o maior domínio do “bad english”, a língua mais falada no mundo, tem ajudado nesta integração e potencialização das ações no campo das ciências da vida. Nossos jovens já têm maior domínio da(s) língua(s) e de todos os modernos equipamentos e métodos digitais necessários a este novo mundo.
A pandemia acelerou tecnologias de comunicação digital jamais imaginadas por nós anteriormente. Fizemos congressos com milhares de participantes como se estivéssemos juntos. A telemedicina e a telessaúde se consolidaram como métodos de acesso e de controle da saúde com plataformas eficientes e ágeis. Para nós, mais “experientes”, resta a constante adaptação já que viemos de um mundo analógico, de papel, preto e branco, de “válvulas” etc. Mas, nos cabe orientá-los, criar oportunidades e abrir caminhos para que este universo da ciência esteja cada vez mais incorporado a nosso cotidiano. Somos uma sociedade com enormes potencialidades nas ciências da vida.
Os governos precisam entender esta importância e apoiar de maneira intensa para darmos um salto gigantesco neste campo. A cooperação de vários níveis nos permitirá reduzir distâncias e ultrapassar etapas que já foram vencidas por outros países e instituições. Assim, cooperar é preciso! Vamos avançar juntos com segurança, compromisso, qualidade e excelência.
Carmino Antonio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020.











