Leitor, você anda se sentindo cansado? Sem energia? Pois bem, a linha de suplementos Simenão, testada e comprovada por cientistas noruegueses, combina 32 nutrientes essenciais para te garantir saúde e disposição nas atividades diárias! Tem estado ansioso? Fique tranquilo, um vídeo do Instagram indicou uma prática respiratória que envia um sinal de relaxamento imediato ao sistema nervoso: basta inspirar e expirar com a bochecha inflada e depois falar “omelete” três vezes. Está demorando para dormir? Coloque um áudio com o canto de baleias-jubarte, desperta uma memória genética dos nossos ancestrais de Atlântida, desativando o lado direito do seu cérebro e te desmaiando imediatamente.
É fácil de aferir que estas recomendações são bastante irônicas, mas não enxergo elas tão distantes daquilo a que somos expostos com frequência nas redes. Só faltou mais esforço da minha parte em disfarçar melhor como algo realmente valioso, e nesse esforço mora o interesse agressivo, esse sim verdadeiro, no tal do “dim dim”, mas aqui vou explorar mais outra perspectiva da situação.
Por mais que sejamos capazes de avaliar criticamente aquilo que nos oferecem, acredito que a simples exposição a essa oferta deixa uma marca dentro de nós, ainda mais quando esta é feita com bastante recorrência.
Lá no fundo, cria-se uma lógica de ausência, desejo e expectativa, que pouco a pouco vai tomando tamanho e forma. A publicidade moderna não oferece mais produtos, ela vai dentro do seu comportamento, dentro da sua vida. Propagandas de bet te colocam dentro de campo, propagandas de carro te colocam na estrada, propagandas de comida te colocam em festa e comunhão. Isso altera a sua percepção de si mesmo e da realidade.
Esse mecanismo não se restringe apenas a quem quer te vender algo, pelo menos não diretamente. Você abre o Instagram e assiste ao vídeo de um criador de conteúdo que faz esquetes ironizando situações do dia a dia, e neste vídeo ele está interpretando um “date” em que a garota pretendida frequentemente o compara com seu ex-namorado. Você assiste, sorri de canto de boca e pula para o próximo. No fundo você criou uma representação e, se estiver vulnerável, uma possível insegurança. Você foi em dois encontros no último mês e nenhum deles foi sequer próximo do interpretado na esquete, mas um alerta foi ligado. O vídeo não passou em branco.
A criação de conteúdo para as redes não é por si mesma condenável, mas existe uma necessidade inata da atividade em produzir quase ininterruptamente para se manter relevante, até um ponto em que a produção talvez nem represente mais a realidade, pelo menos não a sua. Tanto a publicidade direta quanto estes conteúdos online aparentemente inofensivos compartilham da mesma necessidade vital: o excesso. Mesmo munido de senso crítico e sentindo que não é para você, são tantas ofertas, desejos, comportamentos e julgamentos implicitamente colocados à régua, que é impossível não se envolver.
O resultado? Não sou eu que vou dizer, mas sim os autores que tenho intencionalmente buscado conhecer. Dentre eles me parece uma tendência a avaliação de que vivemos em uma sociedade doente por excesso. Byung-Chul-Han defende em “Sociedade do cansaço” que o excesso de positividade é a raiz do males psíquicos modernos: você pode tomar uma pílula para ficar mais saudável, você pode ficar rico com apostas, você pode se mutilar para parecer mais atraente, você pode… se afundar na própria expectativa; Maria Rita Kehl expõe em o “Tempo e o cão” a lógica freudiana de que o psiquismo nasce a partir da falta de algo, e que o desejo é o motor da vida, portanto um sujeito que rapidamente possui tudo aquilo que deseja se torna apático; Freud defende em “O mal-estar na civilização” que o sujeito moderno tem um excesso de exposição à representações e expectativas do “Outro”, tornando seu superego, o tribunal interno a que você mesmo se submete, muito rígido e confuso ao mesmo tempo. Excesso de expectativa, excesso de consumo e excesso de julgamento.
Seria prepotência minha querer trazer soluções para esta problemática: encontro acolhimento nas palavras de quem viveu para estudar isto, para assim tentar construir a minha própria forma de ver o mundo. Erich Fromm, em “A arte de ser” afirma que é necessária uma desconfiança para com tudo que lhe é dito, e expõe o fato de que a dor e a demora fazem parte de algo que mereça ser conquistado: são maneiras de criar o músculo da própria interpretação e até de uma existência verdadeira. Esta visão conversa com a da autora Dra. Anna Lembke, que em “Nação Dopamina” traz uma visão mais científica de que a dor é o que equilibra a balança do prazer (dopamina), portanto também defendendo que a dor e a ausência são partes essenciais de uma vida equilibrada: antes da pílula, se permitir ser humano e experienciar o que há de ser experienciado.
O atum precisa estar em movimento para respirar. Se um tribunal aquático decidisse que toda vida oceânica devesse se comportar como a estrela-do-mar, que repousa no leito marinho, o atum morreria. Se o atum ficasse deslumbrado com a força das orcas e quisesse predar leões-marinhos com elas, seria atacado pelas próprias orcas. Ele só precisa se manter em movimento.
Gabriel Basso Pereira é engenheiro agrícola formado na Unicamp, analista de geotecnologia em empresa do agronegócio, e entusiasta da dúvida.












