Em dez anos levando oficinas de escrita para escolas públicas, unidades socioeducativas e prisionais na região de Campinas, encontrei sempre a mesma coisa: pessoas com sede de cultura. Por onde passo, a resposta é sempre a mesma, quando a arte encontra espaço, as pessoas também encontram um lugar para criar, compartilhar e transformar suas próprias histórias.
Minha primeira experiência com a arte como agente de transformação social aconteceu em escolas estaduais da região do Campo Belo, em Campinas. As crianças chegavam inicialmente pelo lanche; as famílias buscavam aquilo que era escasso no território: acesso à cultura para os filhos. A arte possibilitou o vínculo com a comunidade, que permitiu a reorganização da biblioteca da escola e a criação de uma horta comunitária. A literatura deixou de ser objeto para se tornar pertencimento. Quando o Programa Escola da Família foi encerrado nessas escolas, o bairro perdeu mais um espaço público de cultura e convivência.
A palavra muda a relação da pessoa com o próprio lugar no mundo, isso é notável. Por isso, ela é meu ponto de partida – um poema que abre um encontro, uma frase que se transforma em imagem. Essa ideia virou convicção quando comecei a trabalhar no sistema prisional.
No complexo prisional de Hortolândia, trabalhei primeiro com um grupo onde vi homens que se autodeclaravam analfabetos escreverem poemas que me tiravam o fôlego. Sentia que mais pessoas precisavam ver o que eu via ali. Anos depois, o grafite tornou possível transformar as palavras de outro grupo em imagem. Eles escolheram, ao longo de semanas de diálogo, pintar Paulo Freire e Milton Santos nas paredes das salas de aula com frases inscritas sobre educação e liberdade. A arte também tem o papel de traduzir e ampliar repertórios.
Na Fundação CASA de Campinas pude aprofundar esse trabalho em três unidades. Com o apoio das leis de incentivo à cultura, o projeto ganhou estrutura para ir além das oficinas de grafite: os adolescentes puderam conhecer artistas que apresentavam suas trajetórias e processos criativos. No início, quando perguntávamos quem frequentava exposições ou lia poesia, o silêncio era quase unânime. Ao longo dos meses, esse silêncio deu lugar às rimas, aos poemas, aos desenhos e, por fim, aos murais coletivos.
Mais do que aprender técnicas, aqueles jovens começavam a reconhecer suas próprias experiências como fonte de criação. A produção artística deixava de ser algo distante para se tornar um espaço onde eles também podiam existir.
Anos depois, retornei à Fundação CASA em outro projeto financiado por leis de incentivo à cultura, a convite da Onírico Produtora, desta vez dedicado exclusivamente à escrita poética. O percurso confirmou mais uma vez: quando a palavra encontra espaço, ela produz pertencimento. Os textos dos adolescentes deram origem a um zine autoral e culminaram em um sarau com a presença do poeta Sérgio Vaz. Ao receberem um exemplar do zine nas mãos, os adolescentes puderam experimentar a materialização de vozes que, muitas vezes, são silenciadas. O sarau foi aberto a toda a instituição, e os que participaram do projeto puderam conhecer o escritor que estudaram por meses e recitar seus próprios poemas para ele e para os demais adolescentes, que se mostraram interessados em ouvir e compartilhar as próprias ideias.
Dez anos de trabalho me dão confiança no método para continuar. Hoje, ainda circulo pelas instituições, mas também em regiões centrais e no online, experimentando até onde poesia, música, grafite e colagem podem chegar, oferecendo espaços de acolhimento e produção coletiva para que a palavra circule livre, sem grades e sem prazos. A escrita coletiva funciona. Funciona com crianças no Campo Belo. Funciona com adultos em Hortolândia. Funciona com adolescentes privados de liberdade. Funciona com mulheres no centro da cidade. Os resultados estão documentados, e vão além dos zines, saraus, documentários e murais nascidos do processo.
O acesso à arte e à cultura não é privilégio, mas direito. Em diferentes territórios de Campinas, encontramos movimentos de resistência que organizam saraus, oficinas, coletivos e projetos para garantir esse direito. O que falta não é interesse nem método. Falta política pública abrangente que atinja mais regiões de nossa cidade. O sistema socioeducativo e o sistema prisional permanecem às margens, sendo esquecidos também pela sociedade civil, que muitas vezes escolhe ignorar a existência desses espaços, mesmo havendo hoje no Brasil mais de 800 mil pessoas só no sistema prisional. O contato com arte e cultura nesses espaços ainda é tratado, quando muito, como atividade complementar, quando deveria ser reconhecida como direito.
Depois de dez anos percorrendo escolas, presídios e unidades socioeducativas, fica claro que a poesia não nasce apenas onde há livros, museus ou editais. Ela nasce onde existe gente. O que determina se essas vozes serão ouvidas não é talento, mas acesso. A poesia já está acontecendo. Os territórios que mais precisam de acesso já existem. Cabe a nós decidir se continuaremos passando por ela ou se construiremos caminhos para que ela possa permanecer.
Paula Montenegro Fernandes é psicóloga CRP 06/160156 (PUC-Campinas), educadora social e mediadora cultural. Atua com escrita, arte e processos grupais em contextos de vulnerabilidade social em Campinas e região.












