Quem viveu a infância ou adolescência nos anos 60, 70 e 80, certamente se lembra da canção infantil “Se esta rua fosse minha”, que ainda hoje paira em nossas memórias afetivas e no universo infanto-juvenil. Nela, somos levados a pensar na grandeza do amor de uma pessoa que seria capaz de ladrilhar uma rua com pedrinhas de brilhante para seu amor passar. Mas a canção também indica a importância da rua para revelar esse amor.
Transpondo para o nosso cotidiano, pensamos agora no que a rua nos revela. Por ela passamos todos os dias, seja para irmos ao trabalho, levarmos os filhos à escola, fazermos compras, visitarmos alguém ou nos deslocarmos – para diferentes locais – a pé ou de carro. Há alguma forma de transitar pelas cidades sem passarmos pelas ruas? Definitivamente, não.
As ruas são meio para sairmos de um lugar e chegarmos a outro. Na condição de meio elas nos revelam a cidade e sua fluidez, a velocidade e a lentidão das coisas, o que valorizamos, acreditamos ser importantes, imponentes e defendemos como desenvolvimento econômico.
O que nos diz uma rua limpa, organizada, com fachadas de lojas piscantes, agências bancárias e outros comércios? É um forte indicativo de um lugar planejado, rico e desenvolvido. E: o que nos fala uma rua suja, malcheirosa, escura, com lojas abandonadas? De um lugar a ser evitado, com claro sinal de abandono e violência.
Vale refletir sobre como as ruas revelam a forma como entendemos o desenvolvimento das cidades. Mais do que simples caminhos de passagem, elas estruturam a vida urbana. A organização desses espaços — seja pela limpeza, iluminação ou circulação — indica se um local transmite segurança ou risco, acolhimento ou abandono. As ruas também refletem o momento social em que vivemos, expressando comportamentos, prioridades e modos de convivência nas cidades.
Sendo um indicativo do tempo, podemos lançar a pergunta: como somos nas ruas? Mais amorosos ou mais distantes? Mais simpáticos e empáticos com os que precisam ou mais alienantes às suas dores? Somos mais educados ou revelamos nossa arrogância e falta de paciência?
Esse momento da reflexão nos reconduz à canção que inspira o texto. “Se essa rua fosse minha” não precisa ficar restrita ao imaginário infantil; ela pode orientar a forma como nos relacionamos com o espaço urbano.
No ritmo acelerado do cotidiano, atravessamos as ruas sem perceber as vidas que ali circulam. Em vez disso, vemos apenas estruturas e serviços que atendem às nossas necessidades imediatas, deixando de reconhecer a rua como espaço de convivência e experiência humana.
A rua deixa de ser o ambiente público do amor, da compaixão, do zelo pela vida, das pedrinhas de brilhante simbolizando nosso cuidado com o próximo e passa a ser o “bosque que se chama solidão”, como bem lembra a música. Sendo sós na rua, não enxergamos ninguém, não temos tempo para nada, não desejamos ser interrompidos. Com esses sentimentos nos cercando, o medo e a insegurança reinam por completo e nos fazem ser transeuntes pelas ruas e não seres humanos capazes de expressar, publicamente, diferentes formas de amar e ser amado.
As ruas, portanto, revelam muito sobre a forma como convivemos e nos relacionarmos em sociedade. O desafio é pensar como educar para que esses espaços sem vistos como lugares de encontro e respeito, onde cada pessoa seja vista e reconhecida como parte da vida urbana. A canção que inspira esta reflexão reforça essa ideia ao lembrar que a relação com o outro — mesmo no espaço público — deve ser guiada pelo cuidado e consideração.
Esta reflexão dialoga com os projetos de extensão universitária da PUC-Campinas, que têm como públicos-alvos populações vulnerabilizadas. Os moradores em situação de rua são uma delas. E, entre eles, estão as mulheres. Segundo levantamento censitário realizado pela Feac em 2024, Campinas registrava, à época, 1.557 pessoas em situação de rua. A maioria (83,5%) permanecia nas vias públicas, enquanto 16,5% estava acolhida em serviços institucionais. A concentração mais elevada foi encontrada na região central da cidade.
Discutir a rua é enfrentar desigualdades e políticas públicas, um trabalho que envolve toda a sociedade — e, de forma especial, a Universidade.
Cecília Toledo e Vera Placido são professoras da PUC-Campinas e coordenam atualmente o projeto interdisciplinar de extensão universitária “Mulheres em saída: histórias de vida, lugares enunciados e comunicação como trilhas para a cidadania”











