O alcoolismo entre mulheres é um problema que cresce silenciosamente, acompanhado por mudanças nos papéis sociais, culturais e nas desigualdades de gênero. Embora o consumo de álcool entre elas ainda seja menor do que entre homens, o aumento na frequência e na quantidade tem chamado a atenção de especialistas.
Em 2023, o relatório de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, do Ministério da Saúde, apontou um aumento significativo no uso abusivo de álcool entre as brasileiras. Isso indica uma mudança nos padrões de comportamento e pode ser resultado de mudanças sociais, culturais e econômicas: a publicidade e o entretenimento frequentemente associam o consumo de bebidas por mulheres à independência, diversão e sofisticação, criando pressão para que o álcool seja usado como um símbolo de empoderamento.
A interação do alcoolismo feminino com fatores biológicos e sociais é um desafio. Mulheres metabolizam o álcool de maneira diferente dos homens, o que pode resultar em danos mais rápidos a órgãos vitais, além de aumentar os riscos associados à Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), causada pela passagem do álcool da mãe para o feto através do cordão umbilical e da placenta, resultando em danos irreversíveis ao desenvolvimento físico e mental do feto.
O estigma associado ao alcoolismo feminino tende a ser mais severo. Mulheres muitas vezes são julgadas de maneira mais dura, enfrentando preocupações relacionadas à maternidade, sexualidade e “moralidade”. Esse julgamento pode levá-las a esconder o problema, adiando a busca por ajuda e tratamento.
Questões como violência doméstica e abuso sexual também têm uma relação complexa com o alcoolismo. Mulheres vítimas de abuso têm maior risco de desenvolver transtornos relacionados ao álcool como uma tentativa de lidar com o trauma. Ao mesmo tempo, o consumo excessivo de álcool pode aumentar a vulnerabilidade a situações de violência, inclusive dentro de casa.
A prevenção requer políticas públicas que considerem certas particularidades: esclarecer sobre as diferenças no impacto do álcool entre homens e mulheres, ensinar estratégias que ajudem a reduzir o consumo ou cessar sem comprometimento social, desenvolver programas para relaxamento, trabalhar a ansiedade e depressão, fazer exercícios físicos e indicação de grupos para a promoção da saúde.
O enfrentamento do alcoolismo feminino exige um esforço coletivo e multissetorial. Intervenções eficazes precisam ser pensadas visando a construção de espaços seguros, empáticos e que forneçam informação, para que as mulheres superem os desafios associados ao alcoolismo, recuperem a saúde e resgatem o bem-estar integral.
Assim, iniciativas como o Colcha de Retalhos de Alcoólicos Anônimos desempenham um papel fundamental no acolhimento e na recuperação de mulheres que enfrentam esse desafio. Com base na irmandade e no princípio da ajuda mútua, a iniciativa reforça a importância de redes de suporte comunitárias, oferecendo espaço seguro para compartilhamento de experiências e apoio.
Selene Franco Barreto é psicóloga clínica, consultora de empresas e presidente da ABEAD – Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas












