Uma queda pode mudar a rotina de uma pessoa em poucos segundos. Em idosos e em pacientes com limitações funcionais, esse episódio pode provocar dor, fraturas, internações, insegurança para caminhar e perda progressiva de independência nas atividades do dia a dia.
Por isso, a prevenção de quedas precisa ser tratada como uma pauta de saúde pública e de reabilitação. O cuidado começa pela identificação dos fatores de risco, passa pela avaliação funcional e deve seguir com estratégias que ajudem o paciente a recuperar segurança, mobilidade e autonomia.
A escala do problema no Brasil é expressiva. Em 2024, o Brasil registrou mais de 344 mil atendimentos ou hospitalizações de idosos por quedas, além de 13.385 mortes relacionadas a esses episódios. Nos primeiros quatro meses de 2025, foram cerca de 62 mil internações de idosos após quedas. Esses registros indicam a necessidade de olhar para a queda como um evento que exige investigação, acompanhamento e reabilitação adequada.
Após uma queda, o impacto nem sempre se limita à lesão inicial. Muitos pacientes passam a evitar movimentos, reduzem atividades simples da rotina e deixam de circular com a mesma segurança. Esse processo pode comprometer força, equilíbrio, condicionamento e autonomia.
A reabilitação atua para interromper essa perda funcional. Com avaliação adequada e plano terapêutico individualizado, é possível recuperar capacidades, reduzir riscos e ajudar o paciente a voltar a se movimentar com mais confiança.
A fisiatria tem papel importante nesse processo porque avalia o paciente de forma integral. A queda pode estar relacionada a diferentes fatores, como fraqueza muscular, alterações de equilíbrio, dor crônica, limitações articulares, doenças neurológicas, alterações visuais, uso de medicamentos, histórico de quedas anteriores e condições do ambiente. O Ministério da Saúde também reforça que a queda não deve ser vista como consequência inevitável do envelhecimento, já que pode indicar fragilidade ou alguma condição que precisa ser avaliada.
A partir dessa avaliação, é possível construir um plano de reabilitação individualizado. O objetivo pode envolver fortalecimento muscular, treino de equilíbrio, correção da marcha, melhora da coordenação, controle da dor, orientação para uso de dispositivos auxiliares e adaptação das atividades cotidianas. Cada conduta deve considerar a história do paciente, sua condição clínica e aquilo que ele precisa recuperar para viver com mais independência.
Preservar autonomia significa permitir que a pessoa participe da própria rotina com segurança. Para alguns pacientes, isso representa voltar a caminhar dentro de casa sem medo. Para outros, significa tomar banho com menor risco, sair para uma consulta, subir um degrau, vestir-se sozinho ou retomar atividades sociais.
A prevenção também envolve orientação à família e aos cuidadores. Medidas como manter ambientes bem iluminados, retirar obstáculos, instalar barras de apoio, usar calçados adequados e revisar riscos dentro de casa ajudam a reduzir novos episódios. Essas ações ganham força quando caminham junto com acompanhamento profissional e plano terapêutico adequado.
No contexto do SUS, a reabilitação tem papel estratégico. Ela contribui para reduzir internações prolongadas, reinternações e a progressão de dependência funcional em pacientes que, sem acompanhamento adequado, tendem a perder mobilidade de forma acelerada. Investir em reabilitação pós-queda é também uma forma de aliviar a pressão sobre leitos hospitalares e serviços de urgência, além de garantir que o idoso retorne ao seu ambiente com mais segurança e suporte. A integração entre atenção básica, serviços de reabilitação e rede de apoio familiar é fundamental para que esse cuidado chegue a quem mais precisa.
O Dia Mundial de Prevenção de Quedas, no dia 24 de junho, reforça a importância de identificar riscos antes que eles comprometam a mobilidade, a segurança e a autonomia do paciente. A queda pode sinalizar fragilidade, perda de força, alteração de equilíbrio ou outra condição que precisa ser investigada, e nunca deve ser normalizada como parte inevitável do envelhecimento.
Reabilitar é cuidar do movimento, da segurança e da autonomia. Quando uma pessoa recupera confiança para se movimentar, ela também recupera participação, independência e dignidade na própria rotina. E quando o sistema de saúde reconhece esse processo como prioridade, não está apenas tratando uma queda, está preservando qualidade de vida.
Thiago Rocha Alves Duarte é médico fisiatra do Centro de Reabilitação Lucy Montoro de Mogi Mirim, unidade gerida pelo Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês












