“O planejamento de longo prazo não trata de decisões futuras, mas do futuro das decisões do presente”
Peter Drucker
A energia é vital para a humanidade. Desde sempre e para sempre. Olhe ao redor. Olhe para a cidade. Para o planeta. Feche os poços de petróleo, as minas de carvão. Por um dia, dois dias, uma semana…. basta. Corra e religue tudo. Continue banhando a Terra com 100 milhões de barris de petróleo por dia. Continue queimando 25 milhões de toneladas de carvão por dia. Tudo volta ao normal. Ao normal? Este normal é inabalável? Sem consequências?
O planeta suporta o consumo de energia fóssil nestes patamares? Sabemos que não e já faz tempo que estamos sendo avisados sobre as consequências, conforme comentamos neste texto.
A longa jornada da humanidade em busca de fontes de energia tem sido marcada por uma busca contínua de combustíveis mais eficientes. Nos primórdios da civilização, a humanidade dependia da queima da madeira para obter energia. Abundante e fácil de se obter.
Com o advento da Revolução Industrial, além do carvão, o petróleo bruto e seus derivados emergiram como as principais fontes de energia. Com suas longas cadeias de carbono, oferecia uma densidade energética maior do que a madeira.
À medida que o consumo aumentava, maior era a complexidade logística para distribuir o combustível. A busca por derivados mais leves do petróleo foi o passo inevitável rumo ao diesel, querosene e gasolina até chegar ao gás natural, composto principalmente por metano (CH4), com apenas um átomo de carbono em sua molécula. Havia sim uma descarbonização dos combustíveis, mas a preocupação era com sua armazenagem e distribuição. O efeito estufa e o aquecimento global estavam fora de pauta até meados do século passado.
O impacto sobre o planeta já estava sendo estudado. Em 1824 (duzentos anos atrás!), o francês Joseph Fourier sugeriu que a atmosfera da Terra poderia atuar como uma estufa, embora não tenha usado exatamente esse termo. Em 1859, John Tyndall demonstrou que certos gases, como o CO₂, podiam reter calor contribuindo para o aquecimento da atmosfera.
Cento e trinta anos depois do alerta de Tyndall, em 1988, foi criado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas para avaliar cientificamente as informações sobre o efeito estufa e as consequentes mudanças climáticas. Seu primeiro Relatório (1990) concluiu que as atividades humanas estavam aumentando as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera e que isso poderia levar a mudanças climáticas significativas.
Na busca pela menor emissão de gases com efeito estufa, ganha força o protagonismo do hidrogênio como fonte ou armazenamento de energia. Sua molécula não contém carbono. Seja como combustível ou como fonte direta de energia elétrica, emite apenas água.
Quando produzido por eletrólise da água a partir de fontes de energia eólica ou solar é classificado como “hidrogênio verde”. O termo “hidrogênio renovável” ou “de baixa emissão de carbono” inclui as demais fontes de energia renováveis a exemplo do etanol e das hidrelétricas. Estas não são consideradas de emissão zero devido à liberação de metano proveniente da decomposição da matéria orgânica coberta pelas represas e à eliminação da capacidade de sequestro de carbono das áreas inundadas.
O Brasil, e em particular o Nordeste, possui posição privilegiada devido às vastas áreas com alta incidência solar e regimes de ventos favoráveis. Além disso, sua localização estratégica oferece vantagem adicional em relação ao mercado europeu que busca reduzir sua dependência do gás russo e diversificar suas fontes de energia.
A transição para uma economia baseada no hidrogênio renovável exigirá investimentos substanciais. Será necessário atrair capital para o setor e estabelecer um arcabouço legal sólido que proporcione segurança jurídica aos que desejam investir nesta rota da transição energética.
Nesse contexto, o Projeto de Lei 2308/2023, aprovado em Comissão Especial do Senado há duas semanas, é um passo significativo na definição da Política Nacional do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono.
Além de exportar, o Brasil tem a oportunidade de suprir duas necessidades internas de forte impacto econômico: armazenagem de eletricidade e produção de fertilizantes.
A armazenagem de eletricidade permite uma maior flexibilidade e estabilidade no fornecimento de energia elétrica. Nesta função, o hidrogênio é uma alternativa ou complemento às baterias na operação de fontes renováveis intermitentes. Cada vez mais teremos “fazendas eólicas e solares” ao lado de milhões de produtores com placas fotovoltaicas em seus imóveis espalhados pelo país. Como o sol não está sempre brilhando e o vento sempre soprando, parte da energia gerada pode ser canalizada para a eletrólise da água, gerando hidrogênio a ser estocado para consumo futuro.
Outra destinação do hidrogênio é na produção de fertilizantes. Urge reduzir a dependência externa do Brasil deste insumo fundamental para sua agricultura. A recente crise gerada pela insana invasão da Ucrânia pela Rússia fortalece a necessidade desta autonomia.
Finalizando, ciente de que o Brasil é um grande produtor de etanol ao qual já possui uma rede de distribuição implantada, como podemos aproveitar essa infraestrutura existente para a transição ao hidrogênio renovável?
A reforma do etanol pode ser uma ponte crucial para a produção de hidrogênio com baixa emissão de carbono, mas quais são os desafios técnicos e econômicos associados a esse processo?
Essas questões são fundamentais para moldar o futuro das decisões que tomarmos hoje, conforme a visão de Peter Drucker, e determinarão o sucesso da nossa caminhada rumo a um planeta mais sustentável e resiliente.
Jurandir Fernandes foi secretário de Transportes de Campinas e secretário de Estado dos Transportes Metropolitanos (SP). Presidiu a Emdec (Campinas), a Emplasa (São Paulo), o Denatran (Brasília) e os Conselhos de Administração do Metrô-SP, CPTM e EMTU-SP. Coordena o Grupo de Mobilidade do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo. É membro do Conselho Internacional do Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (Unicamp) e do Conselho da Frente Parlamentar pelos Centros Urbanos (Brasília). É vice-presidente honorário da UITP (Bruxelas).











