Como educadora situada mais à direita do que à esquerda no espectro político, é óbvio: não torço pela criminalidade. Sou conservadora nos costumes, liberal na economia e não vejo contradição alguma nisso. Pelo contrário. Reconhecer a importância da geração de renda não é uma questão de ideologia — é um dado de realidade.
A aprovação do Plano Municipal de Atendimento Socioeducativo de Campinas (2025–2035) representa um avanço institucional relevante. O documento está alinhado ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ao Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE) e à legislação municipal, organizando metas, responsabilidades e propondo uma abordagem intersetorial que envolve assistência social, educação, saúde, cultura, esporte, trabalho, justiça e segurança pública. Tecnicamente, é um plano consistente.
Contudo, políticas públicas só ganham sentido quando confrontadas com trajetórias reais. Leonardo foi meu aluno por quinze dias. Sabia ler, escrever e fazer as quatro operações. Não apresentava déficit cognitivo. Estava na escola porque cumpria medida socioeducativa. Foi expulso de casa quando o pai se casou novamente e a nova companheira não o aceitou. Não recebeu rede de proteção. Recebeu abandono.
Leonardo não queria caridade. Nunca quis. O que ele clamava — ainda que sem essas palavras — era por independência. Trabalho. Renda. Tinha habilidade empreendedora, entendia lógica de mercado e cálculo de lucro. Encontrou no tráfico de drogas aquilo que o Estado, a escola e o mercado formal não ofereceram: remuneração imediata e reconhecimento funcional. Ele fazia o próprio salário com base na produtividade, ganhando por kit vendido. Não por vocação criminosa, mas por racionalidade econômica.
Aos quinze anos, engravidou a namorada, saiu novamente da escola após duas semanas e foi supostamente trabalhar na construção civil. Trabalhar foi sua forma de torta proteção. E sim, é óbvio que prefiro vê-lo longe do tráfico. Mas fingir que apenas discursos pedagógicos competem com economias ilegais é ingenuidade institucional.
É aqui que o Plano Socioeducativo precisa ser lido com seriedade. Ele acerta ao falar em qualificação do atendimento, práticas restaurativas, participação juvenil e acompanhamento pós-medida. Mas sua efetividade dependerá de enfrentar o ponto mais sensível: a geração de renda legal para adolescentes e a fragilidade do sistema de acolhimento.
A realidade de Campinas é marcada por um desafio crescente: os adolescentes de 15 a 18 anos representam 22,6% do total de jovens acolhidos [1], mas a cidade não registrou nenhuma adoção nesta faixa etária em 2024. Esses jovens, que muitas vezes vêm de lares chefiados por mães solo (um perfil que representa 70% das famílias com crianças pequenas no CadÚnico [4], enfrentam o abandono e a falta de perspectiva.
O ápice dessa vulnerabilidade ocorre aos 18 anos. Entre 2019 e 2025, 138 jovens em Campinas se tornaram “inativados” [2], ou seja, foram obrigados a deixar o acolhimento institucional. Embora existam iniciativas como as Repúblicas Jovens, com apenas 12 vagas na cidade [3], a maioria é lançada à vida adulta sem a rede de apoio necessária.
Medidas socioeducativas efetivas precisam incluir políticas concretas de empregabilidade, fortalecimento do jovem aprendiz e educação profissional, conforme previsto no ECA.
O adolescente pode e deve trabalhar na idade adequada. Ignorar isso é empurrá-lo de volta para mercados paralelos que funcionam melhor do que o mercado formal e, muitas vezes, melhor do que a própria escola.
Leonardo não quer caridade. Ele quer trabalho. Que país é esse em que a criminalidade incentiva mais práticas empreendedoras para jovens do que o mercado de trabalho e o sistema educacional? Essa é a pergunta que nenhum plano pode evitar.
Vanessa Crecci é Doutora em Educação pela Unicamp e coordenadora do Observatório da Educação Campineira.
Referências
[1] G1 Campinas. Adolescentes acima de 15 anos são maioria nos abrigos de Campinas, mas não são adotados. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2025/05/26/adolescentes-acima-de-15-anos-sao-maioria-nos-abrigos-de-campinas-mas-nao-sao-adotados-veja-perfis.ghtml
[2] G1 Campinas. Do abrigo para a república: como jovens não adotados são preparados para a vida adulta. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2025/05/25/do-abrigo-para-a-republica-como-jovens-nao-adotados-sao-preparados-para-vida-adulta.ghtml
[3] G1 Campinas. 70% dos abrigos para crianças e adolescentes de Campinas estão lotados ou acima da capacidade, diz Conselho Tutelar. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/01/06/70percent-dos-abrigos-para-criancas-e-adolescentes-de-campinas-estao-lotados-ou-acima-da-capacidade-diz-conselho-tutelar.ghtml
[4] Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Sete em cada dez famílias com crianças pequenas inscritas no CadÚnico são chefiadas por mães solo. Postagem em rede social.












