Durante muito tempo, a cibersegurança foi tratada como uma corrida para proteger redes, servidores, endpoints e perímetros. As empresas investiram em firewalls, antivírus, monitoramento, criptografia e ferramentas de detecção. Tudo isso continua sendo importante. Mas o jogo mudou.
Hoje, o principal caminho explorado por atacantes não é necessariamente invadir pela porta da frente. Muitas vezes, eles entram usando uma identidade válida.
Isso significa que o criminoso não precisa quebrar toda a infraestrutura. Ele pode simplesmente se passar por um colaborador, terceiro, administrador, fornecedor, aplicação, robô, conta de serviço ou identidade não humana. A partir daí, consegue acessar sistemas, movimentar-se no ambiente, escalar privilégios, extrair dados e causar impactos significativos sem, necessariamente, parecer um invasor.
É por isso que as identidades digitais se tornaram um dos ativos mais críticos da cibersegurança moderna.
Uma identidade digital representa muito mais do que um login e uma senha. Ela carrega permissões, papéis, privilégios, vínculos, contexto, histórico de acesso e poder de execução dentro da organização. Em outras palavras, quem controla uma identidade, controla o que aquela identidade pode fazer. E esse é exatamente o ponto de interesse dos cibercriminosos.
O problema se agrava porque as empresas estão cada vez mais distribuídas. Há colaboradores internos, terceiros, parceiros, prestadores de serviço, contas administrativas, integrações entre sistemas, APIs, automações, bots, contas técnicas e workloads em nuvem. Cada uma dessas identidades pode representar uma porta de entrada, um ponto de abuso ou um caminho para movimentação lateral.
A pergunta deixou de ser apenas “temos segurança no ambiente?” e passou a ser: sabemos exatamente quem tem acesso ao quê, por que tem esse acesso, quem aprovou, quando foi revisado e se ainda faz sentido?
Na prática, muitas organizações ainda convivem com problemas recorrentes: usuários com acessos acumulados ao longo do tempo, terceiros ativos após o fim do contrato, contas órfãs, perfis excessivos, ausência de segregação de função, acessos privilegiados sem rastreabilidade, revisões manuais, identidades não humanas sem owner e permissões concedidas sem uma visão clara de risco.
Essas fragilidades criam um cenário ideal para o atacante. Afinal, uma identidade com acesso excessivo pode ser mais perigosa do que uma vulnerabilidade técnica isolada. Se essa identidade for comprometida, o invasor herda seus privilégios e passa a operar com aparência de legitimidade.
É por isso que a segurança de identidades não pode ser tratada apenas como um processo de criação e exclusão de usuários. Ela precisa ser compreendida como uma disciplina estratégica, conectada à governança, risco, compliance, auditoria, segurança da informação, tecnologia e negócio.
Um programa maduro de segurança de identidades deve responder a perguntas fundamentais:
Quais são as identidades da organização?
Quais são humanas, não humanas, privilegiadas, técnicas ou terceiras?
Quais acessos cada uma possui?
Esses acessos são compatíveis com a função exercida?
Existem conflitos de segregação de função?
Quem aprovou cada permissão?
Quando o acesso foi revisado pela última vez?
Há evidências auditáveis?
Existe processo para revogar, ajustar ou bloquear acessos indevidos?
Essas perguntas parecem simples, mas exigem processos bem definidos, papéis claros, tecnologia adequada, integração entre áreas e uma cultura de responsabilidade compartilhada.
Nesse contexto, temas como IGA, PAM, AM, RBAC, SoD, revisão de acessos, gestão de terceiros, gestão de identidades não humanas e ITDR deixam de ser iniciativas isoladas e passam a compor uma estratégia integrada de proteção.
A Governança e Administração de Identidades ajuda a estruturar o ciclo de vida dos acessos, desde a admissão até o desligamento.
O PAM protege contas privilegiadas e atividades administrativas críticas. O RBAC organiza permissões por papéis e reduz concessões excessivas. A SoD identifica conflitos sensíveis, como quando uma mesma pessoa pode solicitar, aprovar e executar uma atividade crítica. Já o ITDR amplia a capacidade de detectar e responder a ameaças baseadas em identidade.
Mas a tecnologia sozinha não resolve. É preciso definir responsabilidades. O gestor precisa validar se o acesso faz sentido para a função. O dono do sistema precisa conhecer os riscos do seu ambiente. Segurança da Informação deve estabelecer controles e diretrizes. Compliance e Controles Internos devem apoiar a visão de risco. Auditoria deve avaliar a efetividade. E a área de identidade deve orquestrar processos, evidências, integrações e governança.
A identidade se tornou o novo perímetro porque o ambiente corporativo não tem mais fronteiras claras. O acesso acontece de qualquer lugar, por diferentes dispositivos, em múltiplas plataformas e com interações constantes entre humanos, máquinas e aplicações. Nesse cenário, proteger apenas a infraestrutura é insuficiente.
A empresa que não governa suas identidades opera no escuro. Ela pode até ter ferramentas robustas, mas continuará vulnerável se não souber quem possui acesso, se esse acesso é necessário e se os privilégios concedidos estão sendo utilizados de forma segura.
Por isso, a segurança de identidades precisa estar na pauta dos executivos, dos conselhos, das áreas de risco e das lideranças de tecnologia. Não se trata apenas de controlar acesso. Trata-se de proteger a operação, os dados, a reputação e a continuidade do negócio.
No fim, todo ataque precisa de algum nível de acesso para causar impacto. E, cada vez mais, esse acesso começa por uma identidade.
A pergunta que fica para as organizações é simples: suas identidades estão sendo governadas como ativos críticos ou ainda são tratadas apenas como cadastros de usuários?
Nathalia Carmo é especialista em Segurança de Identidades e CyberSecurity. Sócia da IAM Brasil e responsável pela gestão e acompanhamento das entregas de projetos, garantindo qualidade, eficiência e alinhamento às necessidades dos clientes. Também é docente do CEC IAM Academy e participa ativamente da produção de conteúdos sobre identidade digital e cibersegurança. Formada em Ciência da Computação e pós-graduada em Cibersegurança e Cybercrimes, possui experiência na liderança de equipes técnicas e na implementação de processos e soluções de Identity Governance and Administration (IGA) e Privileged Access Management (PAM), atuando na integração entre segurança, governança e objetivos de negócio.












