À primeira vista, a expressão “sexo decente” evoca o vocabulário das cartilhas puritanas, das doutrinas religiosas ou dos manuais de etiqueta burgueses do passado. Na ordem da moral judaico-cristã tradicional, a decência do leito sempre foi medida pela conformidade a regras rígidas: o matrimônio, a heterossexualidade, a finalidade reprodutiva e a contenção do prazer. Fora desse cercado censor, restava apenas a margem da “indecência”.
No entanto, o avanço cultural contemporâneo exige o deslocamento urgente dessa discussão do plano moral para o ético. Enquanto a moralidade se ocupa em julgar formas, posições e identidades com base em dogmas temporais, a ética se fundamenta na universalidade do respeito, da dignidade e da alteridade. Em poucas e únicas palavras: no amor.
Propõe-se aqui, portanto, uma redefinição do termo: o sexo decente não é aquele que cumpre as expectativas de uma sociedade vigilante, mas sim o que se realiza na esfera do consentimento mútuo, da responsabilidade afetiva e do reconhecimento do outro como sujeito — e jamais como objeto. Afinal, a verdadeira obscenidade não reside na livre manifestação do desejo, mas na ausência amorosa, nas dinâmicas de poder, na exploração e nos descuidos que frequentemente se escondem sob o véu das aparências.
A (in)decência sexual envolve mais o gênero feminino. Durante muito tempo, as mulheres foram classificadas em polos extremados de moralidade: eram as santas e as prostitutas.
Para o homem, ainda hoje, as reservas machistas demandam que ele deva ser ao menos um mínimo “indecente” na sua conduta sexual.
Mesmo que atualmente as extremidades morais estejam mais brandas, as mulheres seguem encurraladas. No polo das santas, as moças decentes (casadoiras, vestidas com pudor, recatadas, religiosas e pouco ou nada interessadas em sexo); no das prostitutas, moças indecentes (expostas, decotadas, despudoradas, erotizadas e focadas em sexo).
Sob o foco da nossa lente aqui, fica claro que a emancipação do corpo feminino avançou muito no papel (e no discurso público), mas na prática íntima, cotidiana e social, as amarras morais apenas mudaram de roupagem. Elas se sofisticaram.
O que de fato avançou? Afinal, há uma ilusão de liberação plena. Esta liberação pode estar longe de ser plena, mas está caminhando. Não há como negar que as mulheres conquistaram espaços de autonomia que seriam impensáveis há algumas décadas. Observemos alguns.
Independência reprodutiva e financeira: a pílula anticoncepcional (separou sexo de reprodução) e a entrada no mercado de trabalho permitiram à mulher a soberania sobre o próprio destino.
Discurso público e visibilidade: falar sobre prazer feminino, orgasmo, masturbação e diversidade de desejos deixou de ser um tabu absoluto. A pornografia feminista, a literatura erótica escrita por mulheres e os debates em redes sociais trouxeram o desejo feminino para o centro do palco.
A linguagem do consentimento: o avanço das pautas feministas consolidou que o “não” é verdadeiramente um “não” e que o consentimento ativo consiste em barreiras éticas inegociáveis.
Um chiste divertido, justamente pelo apelo machista e moralista, ainda reverbera: “Sabes as diferenças entre o diplomata e a mulher? O diplomata, quando diz sim, é talvez; quando diz talvez, é não; e se disser não, não é diplomata. E a mulher, quando diz não, é talvez; quando diz talvez, é sim; e se disser sim, não é mulher”…
A censura que coage a mulher perdeu algum vigor, mas ainda persiste, com a moral fantasiada de “liberdade”. A moral tradicional não desapareceu; ela se adaptou. Hoje, a mulher enfrenta novas formas de cobrança que continuam controlando seu corpo. Vejamos algumas.
A “obrigação” de ser sexy (a hipersexualização): antes, a moral exigia que a mulher fosse santa, recatada e pura. Hoje, há uma pressão mercadológica e social para que ela seja livre, empoderada e sexualmente performática. Se ela não se comporta assim, é vista como “travada” ou “antiquada”. O controle mudou de direção, mas continua vindo de fora. O corpo dela ainda serve para o olhar e a validação do outro, e não para o próprio prazer autônomo.
O julgamento moral residual, a “reputação”: a sociedade moderna aplaude a “mulher livre” na teoria (na música pop, nas séries, na publicidade), mas, na prática, pune essa liberdade feminina. O número de parceiros, a forma de se vestir e a iniciativa sexual ainda são usados para medir o valor moral e o respeito que uma mulher “merece” receber. No júri da internet e das relações cotidianas, o estigma da “vulnerabilidade moral” ainda recai quase que exclusivamente sobre o feminino.
Violência e posse: o aumento sistemático nos casos de importunação sexual, assédio e feminicídio mostra que, quando a mulher decide exercer sua liberdade ética de dizer não (ou de escolher com quem e quando se relacionar), o machismo estrutural reage com violência. A recusa feminina ainda é vista por muitos homens como uma ofensa à sua masculinidade.
O “sexo decente” para a mulher moderna virou uma corda bamba onde ela tem que se virar como equilibrista. Se ela transa “pouco”, é reprimida; se transa “muito”, é julgada. Se é passiva, é submissa; se toma a iniciativa, é agressiva.
Laços e transição para o plano ético defendem justamente que a mulher não deve satisfação a nenhuma dessas cobranças (sejam elas puritanas ou pseudo-libertárias). O sexo decente para o feminino é aquele em que ela recupera o direito à sua subjetividade real: o direito de desejar, de não desejar, de dizer sim, de dizer não, e de ser respeitada independentemente de sua conduta erótica.
O “sexo decente”, sob a ótica contemporânea, revela ainda uma famigerada reserva hipócrita, substituindo as masmorras de pedra por gaiolas de vidro. Os homens e as mulheres mais dominados por essa dinâmica fingem-se libertos em praça pública enquanto, no recôndito de suas mentes e das interações cotidianas, alimentam as mesmas amarras e preconceitos de outrora.
Assim, homem, mulher e sociedade encenam uma trágica farsa moral. Condenam a indecência do desejo honesto para encobrir a verdadeira e sistêmica obscenidade: a pobreza afetiva. Daí, campeiam a mercantilização dos corpos, a violência disfarçada de posse e a covardia de não encarar o outro como um ser livre.
Enquanto a decência for medida pelas aparências e não pela profundidade ética do respeito mútuo, pela inspiração do amor, continuaremos a ser uma coletividade de voyeurs moralistas, tateando no escuro, famintos por um prazer autêntico que nossa própria hipocrisia insiste em proibir.
A evolução prossegue, apesar das ilusões e enganações, para que nos aproximemos do verdadeiro sexo decente.
Esse sexo decente equivaleria ao sexo ético, amoroso, responsável e respeitoso, seja em um encontro casual, predominantemente carnal, de intenção apenas lúdica — um passatempo vigorosamente erótico e bem divertido, com parceiros protegidos com preservativo genital e “camisinha” nos corações —, seja em um novo encontro íntimo de companheiros que vivenciam a sequência de seu vínculo sentimental.
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor












