Na perspectiva da psicanálise, o papel materno ocupa um lugar estruturante na constituição psíquica do indivíduo. Mais do que uma função biológica, ser mãe (ou exercer a função materna), envolve a oferta de cuidado, afeto, linguagem e, sobretudo, a introdução do sujeito no campo das relações humanas. Desde os primeiros momentos de vida, é por meio desse outro primordial que o bebê começa a organizar suas experiências, transformando sensações dispersas em significados. A mãe, nesse sentido, não é apenas quem gera, mas quem sustenta simbolicamente o início da existência psíquica.
Para Sigmund Freud, as primeiras relações estabelecidas na infância, especialmente com a figura materna, são determinantes para a formação da personalidade e para o modo como o indivíduo lidará com o desejo, a frustração e o amor ao longo da vida. Já Jacques Lacan amplia essa compreensão ao afirmar que a função materna está diretamente ligada à inserção da criança na linguagem e no campo simbólico. A mãe, ao responder às necessidades do bebê, traduz suas demandas e, assim, possibilita que ele se reconheça como sujeito.
É importante destacar que essa função não se limita necessariamente à mãe biológica. Quem ocupa o lugar materno (seja uma mãe adotiva, avó, cuidadora ou outro responsável) pode exercer plenamente esse papel, desde que ofereça presença consistente, acolhimento e referência afetiva. O essencial, do ponto de vista psicanalítico, não é o vínculo sanguíneo, mas a qualidade da relação estabelecida, a capacidade de sustentar o cuidado e de oferecer limites que organizem o mundo interno da criança.
Por outro lado, a ausência dessa função materna, seja parcial ou total, pode trazer consequências significativas para o desenvolvimento emocional. Crianças que crescem sem uma referência materna estável podem apresentar dificuldades na construção de vínculos, insegurança afetiva, problemas na regulação emocional e até questões relacionadas à identidade. A falta de um olhar que reconheça, nomeie e valide suas experiências pode gerar um vazio simbólico, dificultando a organização psíquica e a inserção saudável nas relações sociais.
Isso não significa, contudo, que tais destinos sejam imutáveis. A psicanálise também nos ensina que o sujeito pode, ao longo da vida, ressignificar suas experiências e construir novas referências. Ainda assim, não se pode negar a importância fundamental desse primeiro laço, que serve como base para toda a estrutura emocional futura.
Ao nos aproximarmos do Dia das Mães, é essencial refletir sobre a profundidade desse papel, que vai muito além do cuidado visível. Trata-se de uma função que estrutura, sustenta e humaniza. Valorizar a mãe; seja ela biológica ou aquela que assumiu esse lugar com responsabilidade e amor, é reconhecer a origem de muitos dos nossos recursos psíquicos mais fundamentais.
Assim, mesmo que esta mensagem chegue alguns dias antes, fica aqui um sincero e antecipado reconhecimento: um Feliz Dia das Mães a todas aquelas que, de alguma forma, exercem essa função tão essencial na construção de vidas, histórias e subjetividades.
Thiago Pontes Thiago Pontes é Filósofo, Psicanalista e Neurolinguísta (PNL). Instagram @dr_thiagopontes_psicanalista – site: www.drthiagopontespsicanalista.com.br











