Daniel de Camargo, 38 anos.
Concluí a graduação de jornalismo em 2017. Em março de 2018, surgiu uma oportunidade inesperada e, à época, para um recém-formado, irrecusável: atuar como repórter no Correio Popular – na ocasião, ainda considerado o mais importante e respeitado jornal impresso da Região Metropolitana de Campinas (RMC). A oferta de trabalho veio após indicação de um amigo de faculdade. Era a chance de um grande início de carreira. Estava ciente do declínio da empresa. Contudo, considerando o renome da marca e o seu já constatado potencial, acreditei que ocorreria uma reviravolta. Não aconteceu durante os três anos em que trabalhei lá.
É incrível e triste recordar isso: eu nunca recebi um salário inteiro no Correio Popular. Não lembro exatamente se foi desde o início, mas, em determinado momento, as remunerações começaram a ser fracionadas, pagas semanalmente – quando eram feitas.
Apesar do cenário caótico, nunca houve empatia dos donos para com os funcionários.
Por brio, profissionalismo e prazer em fazer bom jornalismo, a equipe se mantinha empenhada. Isso, inclusive, ao longo do sombrio e perigoso período da pandemia. Obviamente, existiram episódios de revolta. Contudo, se um chutasse momentaneamente o balde, alguém sempre assumia qualquer que fosse a demanda e o jornal era publicado.
Depois de incontáveis desmazelos, o principal: toda a equipe foi sumariamente demitida. Humilhante! Parecia que os errados éramos nós. Literalmente, fomos colocados para fora. Pior, ‘com uma mão na frente e outra atrás’.
Na minha rescisão, que foi meramente burocrática para promoverem o meu desligamento, foi feito o único recolhimento de FGTS em todo o período que estive no Grupo RAC – o valor foi referente a um salário. A ação era necessária para que eu pudesse ter acesso ao seguro-desemprego. Surreal!
Passados cinco anos, não recebi um real sequer.
Quando me mandaram embora, o que me era devido dava para comprar um carro zero. Dependendo do local, até um imóvel. Hoje, mediante a sentença favorável na Justiça, que determinou multa e juros, o montante dobrou. Porém, não há expectativa de recebimento.
Costumava acompanhar o processo, mas, no último ano, o mesmo teve seu status alterado para “segredo de justiça”. O que não é segredo para ninguém é que o Correio Popular lesou imensuravelmente muitos trabalhadores – alguns não se recuperaram até hoje. Graças a Deus, não é o meu caso.
De lá pra cá, me casei, tive outros empregos. Todavia, fui prejudicado. Passei perrengues complicados, tive que vender um carro, com valor sentimental inestimável para mim, pois era do meu pai.
Hoje, o mínimo que espero é que, de algum modo, haja certa reparação para mim e meus colegas.
E, o quanto antes. A meu ver, a Justiça do Trabalho tem se mostrado significativamente lenta, desconsiderando a gravidade dos desdobramentos. Grande no Correio Popular, de fato, eram muitos dos profissionais que trabalhavam lá.
Só não lastimo essa experiência, tanto quanto não a qualifico inteiramente como infeliz, porque fiz valiosas amizades e aprendi bastante sobre jornalismo e caráter.

Delma Medeiros, 69 anos
Fiquei 20 anos no Correio Popular. Entrei em março de 2001 e foi um período fantástico. Aprendi muito lá, fiz grandes amigos. Foi uma escola maravilhosa. Até 2014. Neste ano, o jornal parou de depositar o FGTS dos funcionários. Foi o início da decadência. Mas os salários continuaram a ser pagos corretamente, até 2017.
A partir daí, começaram os atrasos, primeiro de dias, depois semanas, depois o jornal pediu pra parcelar os pagamentos. Recebíamos quinzenalmente, aí, o jornal propôs que fosse semanal, alegando que era mais fácil juntar o montante de ¼ de salário. Topamos.
Poucos dias depois, nem semanalmente o jornal conseguiu nos pagar. Aí começaram os atrasos, ficávamos 2 semanas pra receber ¼, depois 1/8. A bola de neve foi crescendo de forma que teve meses de recebermos 1/8, ou nada.
A coisa cresceu tanto que o próprio jornal admitiu, ao fazer a demissão coletiva, que tínhamos 20 meses de salários atrasados, além de férias, 13º., etc. Foi um período dramático.
Casais se separaram, outros foram despejados, crianças saíram de escolas particulares para públicas…vidas foram destruídas.
Nem vou elencar os meus prejuízos pessoais, emocionais, físicos. Sou PCD hoje. Não foi diretamente culpa do jornal, mas indiretamente foi.
Quando nos enxotaram, entrei numa depressão tão profunda que perdi uns 8 quilos em um ou dois meses, um emagrecimento nada saudável, que consumiu musculatura e até massa óssea.
Por conta disso, uma queda idiota, resultou na fratura do fêmur e do úmero esquerdos, e me deixou acamada por uns 2 meses, e depois numa cadeira de rodas. Evolui, fiz exercícios, acompanhamento com fisioterapeuta e educador físico, mas tenho graves problemas de locomoção, que serão eternos.
As amizades construídas naquela redação, ninguém pode tirar de nós. São eternas, e fortificadas pelo desespero vivido por todos nós.

Wilson Lima, 64 anos
Comecei minha carreira no jornalismo há mais de 40 anos, no Jornal de Jundiaí. Três anos depois, numa segunda-feira pela manhã, cheguei para trabalhar e encontrei uma cena que jamais esqueci.
Meus colegas de redação estavam em pé, encostados na parede, olhando em silêncio para nossas mesas, agora ocupadas por uma equipe completamente desconhecida. O dono do jornal havia arrendado a redação. Fez isso sem nos avisar. Simplesmente viajou, deixando que descobríssemos da forma mais humilhante possível. Quem assumia acreditava que já estávamos demitidos.
Depois do choque e do constrangimento, restou buscar a Justiça do Trabalho.
Nem o salário do último mês havia sido pago. Éramos uma equipe muito jovem, mas muitos já sustentavam esposa, filhos pequenos e toda a responsabilidade de uma família. O Brasil atravessava uma recessão severa, e perder o emprego significava muito mais do que perder um salário. Significava perder a tranquilidade, o sono e a esperança. Entramos com uma ação coletiva por meio do sindicato.
Aos poucos, o advogado da empresa começou a negociar acordos individuais. Quando chegou a minha vez, apresentou uma proposta quase ofensiva: receber apenas 10% do valor devido, ainda parcelado.
“Melhor aceitar. Caso contrário, você vai esperar dez anos para receber menos do que isso.” Recusei. Nove anos depois, recebi praticamente aquilo que ele havia previsto. Financeiramente, perdi. Mas preservei algo que não tem preço: minha dignidade.
Décadas mais tarde, em 2020, depois de passar por diversos veículos de comunicação e atuar também como consultor, surgiu a oportunidade de voltar para uma redação. Eu conhecia a situação do Correio Popular.
Aquele que um dia foi o maior jornal do Interior paulista já enfrentava uma longa crise, acumulando atrasos salariais e ações trabalhistas. Mesmo assim, aceitei o convite.
Depois de um período de depressão, eu precisava reencontrar o ambiente onde sempre me senti vivo: uma redação de jornal. E que redação.
Profissionais experientes, talentosos e profundamente comprometidos com o jornalismo. Mesmo diante de uma estrutura precária, salários baixos, atrasados e frequentemente pagos em parcelas, entregavam diariamente um trabalho de altíssimo nível. Faziam jornalismo por convicção.
Mas convicção não paga contas.
A situação tornou-se insustentável. A greve foi inevitável. Depois vieram as demissões. E, de repente, 40 anos depois, eu estava vivendo praticamente a mesma história do início da minha carreira.
O jogo continua o mesmo. Aposta-se no sofrimento de quem precisa receber para sobreviver e na lentidão da Justiça, que transforma o direito em uma espera quase interminável.
Fiquei ali apenas um ano. Muitos colegas passaram uma vida inteira naquela redação. Investiram talento, energia, saúde e sonhos.
É impossível não sentir tristeza ao perceber que, depois de mais de quatro décadas, tão pouca coisa mudou. A Justiça continua demorando. Os maus empresários continuam encontrando formas de proteger seus bens antes de assumir suas responsabilidades. E trabalhadores continuam sendo tratados como números, peças substituíveis de um jogo desumano.
Apesar de tudo, existe algo que eles jamais conseguem tomar de nós. A dignidade.













