Na série especial que o Hora Campinas vem produzindo sobre os centenários da região, histórias de vida se entrelaçam com a ciência. A iniciativa acompanha, também, os estudos conduzidos por pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, que investigam os fatores por trás da longevidade. Após já retratar personagens como dona Ruth e outros exemplos marcantes, o Hora volta a contar a trajetória de mais um centenário que desafia o tempo.
A região de Campinas tem se destacado por histórias que impressionam. Homens e mulheres que ultrapassam os 100 anos com lucidez, vitalidade e uma rotina ainda marcada por hábitos simples seguem despertando atenção — tanto da sociedade quanto da comunidade científica.
É nesse cenário que surge a história de Benedito Rodrigues Gomes, de 103 anos, morador do distrito de Barão Geraldo, em Campinas.
Nascido em São João Batista do Glória, no Sul de Minas Gerais, seu Benedito construiu uma vida inteira ligada ao trabalho pesado na roça. Cortou lenha, cuidou da terra, criou família e, mesmo após a aposentadoria, seguiu ativo por muitos anos. Trabalhou como segurança durante a noite e só reduziu o ritmo já na terceira idade. “Não foi fácil”, resume a filha Leni, de 64 anos, uma das seis filhas que hoje acompanham de perto a rotina do pai.
A mudança para Campinas aconteceu na década de 1970, quando Benedito já tinha dois filhos. Instalado inicialmente em uma chácara, onde ajudava na criação de animais e no cultivo da terra, ele construiu ali uma nova fase da vida, sempre com o trabalho como base.
Apesar de uma vida marcada por esforço físico intenso, a saúde sempre foi aliada — com exceção de um episódio mais grave, na década de 1970, quando enfrentou a tuberculose e precisou ficar internado por um ano em Campos do Jordão. Recuperou-se. E seguiu.
Hoje, aos 103 anos, seu Benedito convive com dores causadas por artrite, mas segue lúcido e cercado pela família. Viúvo há quase dez anos, ele mora na casa onde viveu com a esposa Rita, no Jardim São Gonçalo. Após a perda da companheira, enfrentou um período de tristeza profunda, amenizado com a presença constante dos filhos.
A rotina atual é compartilhada com o genro, que auxilia nos cuidados diários, e com uma funcionária antiga da família, que ajuda na casa e na alimentação. As filhas se revezam na companhia, garantindo que ele nunca esteja sozinho.
E talvez um dos segredos dessa longevidade esteja justamente na simplicidade que sempre marcou sua vida.

Segredos e “prazeres”
A alimentação, por exemplo, pouco mudou ao longo das décadas. Arroz, feijão, mandioca, carnes simples como frango caipira, porco e peixe fazem parte do cardápio diário. Verduras? Poucas — quiabo, abobrinha e um pouco de alface. Nada de exageros ou modismos.
Há também espaço para pequenos prazeres: uma dose de cachaça ainda faz parte da rotina. Eventualmente, um copo de cerveja. Sempre sem excessos.
Outro hábito que atravessou o tempo é o ritmo de vida: dormir cedo e acordar cedo — herança dos tempos de roça, quando a jornada começava antes do nascer do sol.
A longevidade parece, inclusive, fazer parte da história familiar. A mãe de seu Benedito viveu até os 101 anos. Uma irmã chegou aos 102. Outros familiares também alcançaram idades avançadas, o que reforça o interesse científico sobre casos como o dele.
Hoje, seu Benedito é o último dos irmãos ainda vivo — uma testemunha silenciosa de gerações, mudanças e histórias que atravessaram mais de um século.
Entre perdas, trabalho duro e uma vida construída com simplicidade, ele segue ali, firme, cercado pelos filhos, nove netos, quatro bisnetos e muitas memórias.
Mais do que um número, seus 103 anos representam uma vida inteira que resiste, dia após dia, aos novos tempos.

Pesquisa busca entender os segredos da longevidade
O Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP) está recrutando voluntários com mais de 100 anos para participar de um estudo científico sobre longevidade humana. O convite se estende a idosos que vivem na Região Metropolitana de Campinas (RMC).
O objetivo da pesquisa é compreender como algumas pessoas conseguem ultrapassar um século de vida — muitas vezes com qualidade — e identificar fatores genéticos e ambientais que contribuem para um envelhecimento saudável.
Para isso, os pesquisadores coletam informações clínicas, históricas e biológicas de centenários brasileiros, analisando como genética, estilo de vida e histórico familiar influenciam a longevidade.
A iniciativa ajuda a explicar histórias como a de seu Benedito — e de tantos outros centenários da região — que seguem desafiando o tempo.
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