Ainda me lembro da alegria daquele menino de 19 anos. No dia 4 de agosto de 1980 tive o meu primeiro contrato de trabalho assinado, com o jornal O Diário, de Piracicaba, do grande Cecílio Elias Netto. 45 anos de jornalismo em 2025, uma estrada e tanto e só tenho a agradecer a tanta gente e a Deus. A começar pelos meus pais, que sempre me incentivaram. Uma criança, praticamente, saindo da querida Itamogi para estudar na PUC do Rio de Janeiro e, depois, na Unimep, um paraíso na época. Piracicaba vivia provavelmente a sua melhor fase, com o reitor Elias Boaventura na Unimep, João Herrmann Neto na Prefeitura e Cecílio, sempre combativo, no Diário.
Desde o primeiro momento pratiquei o jornalismo ambiental. Piracicaba estava toda mobilizada na luta em defesa de seu rio e assim comecei, pesquisando e escrevendo sobre água e depois sobre tudo em meio ambiente. Peguei o Festival de Música Ecológica do SESC, vivenciei os protestos pela destruição das Sete Quedas e, no plano doméstico, do também belo rio Piracicaba, vida e alma daquela cidade.
E que mestres, como Dermi Azevedo – um dos mais importantes jornalistas da recente história brasileira – e Paulo Affonso Leme Machado, que era promotor em Piracicaba na época e se tornou simplesmente no maior jurista ambiental do país. E também Nelson de Souza Rodrigues, grande defensor do rio e liderança da Campanha Piracicaba Ano 2000, que deu origem a tanta coisa importante, como o Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba e Capivari (do qual fui o primeiro assessor de imprensa) e toda a legislação hídrica que São Paulo e o Brasil conhecem.
Enfim, o jornalismo ambiental sempre esteve comigo, inclusive nos momentos em que alguns editores de jornal depois viam com alguma reticência. Mas o jornalismo ambiental só cresceu e hoje é fundamental para a saúde do planeta e da humanidade. Não há veículo que não aborde o assunto, inclusive pela cada vez mais crítica emergência climática.
Sim, o jornalismo mudou muito nestas quatro décadas e meia. Com o surgimento da Internet, a imprensa impressa ficou e continua em xeque, mas o jornalismo continua, sempre, porque sem ele não há sobrevivência da democracia, da civilização como conhecemos, do respeito mínimo aos direitos humanos. Seja em que formato for, o jornalismo vai continuar incomodando, pela atuação dos profissionais comprometidos com os valores de sua escolha de vida. Que orgulho de todos meus e minhas colegas de profissão!
Direitos humanos. Também vi esse tema crescer de forma permanente na imprensa. E tenho igual orgulho de ter trabalhado nos primeiros números do Jornal do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, que nasceu em 1982, no âmbito da Teologia da Libertação que na época era muito forte no Brasil e em toda a América Latina (Pedro Casaldáliga assinou o prefácio de um dos meus livros, Terra Nossa Prometida, que honra!). Assim como no jornalismo ambiental, tenho procurado atuar constantemente com o olhar para os direitos humanos, em toda a sua complexidade e extensão.
Nesse sentido foi uma enorme oportunidade trabalhar na Agência Ecumêmica de Notícias, em São Paulo, logo que saí da faculdade. Na AGEN, idealizada e liderada pelo citado Dermi, minha visão se ampliou e os assuntos nacionais e internacionais tomaram conta. Visitei várias vezes a Amazônia, quando os olhos do mundo começaram a se voltar para a grande floresta, muito em função do assassinato de Chico Mendes. E pela AGEN também cobri a Assembleia Nacional Constituinte, em Brasília, naquele período que para mim foi um dos mais inteligentes da história brasileira. Que dedicação dos movimentos sociais e muitos parlamentares pela redação de uma nova Constituição, digna de um país que os brasileiros de fato merecem. Entre eles, cito Fábio Feldmann, de enorme protagonismo na formulação do inédito capítulo ambiental na Constituição, que encontrei todo alegre nos corredores da Câmara dos Deputados com o texto praticamente fechado e que depois seria votado em plenário.
Também pela AGEN, a cobertura de dois grandes eventos internacionais, que discutiram temas que hoje são presença constante na mídia e na agenda da sociedade global. O Tribunal Lelio Basso, em Berlim, que julgou os crimes contra a Amazônia e seus moradores. E a Consulta Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC), em Seul, maior evento das Igrejas cristãs sobre pacifismo e meio ambiente já realizado, a questão climática já iminente.
Depois, o Correio Popular, em um período fabuloso do jornal, com tanta gente boa na edição e na redação, no dia a dia. Pelo Correio, por exemplo, a cobertura da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, no Rio de Janeiro, mais importante evento ambiental já realizado e que definiu a agenda atual, incluindo a questão climática e da biodiversidade.
E os livros. O primeiro, em 1987, Ecologia ou Morte, e depois dele tantos outros, sobre vários temas. São muitos títulos, por exemplo sobre vários aspectos da história de Campinas, sobre muitas de suas fundamentais instituições, que ajudaram a construir a história da cidade.
45 anos e contando. Muitos projetos pela frente, agora que Deus me deu mais uma vez o dom da vida, depois de um grande susto de saúde. E na melhor companhia possível, que alegria. Só emoção e gratidão, a tantos amigos e amigas e ao grande Criador. Vamos em frente, viva a vida!
José Pedro Martins é jornalista, escritor e consultor de comunicação. Com premiações nacionais e internacionais, é um dos profissionais especializados em meio ambiente mais prestigiados do País. E-mail: josepmartins21@gmail.com.











