Já escrevemos em artigo anterior sobre a doença de Chagas e a fundamental necessidade de controlar tanto a transmissão silvestre como, principalmente, a transmissão através de alimentos “in natura’ (açaí ou cana de açúcar) como através das transfusões de sangue e seus componentes (1). Vamos traçar neste texto, uma visão mais universal do problema e os problemas existentes através do mundo.
A doença de Chagas é uma assassina silenciosa.
Em todas as Américas, estima-se que 8 a 10 milhões de pessoas, a maioria das quais são predominantemente pobres e marginalizadas, são infectadas pelo parasita mortal que causa a doença de Chagas, o Trypanosoma cruzi. As crianças são particularmente afetadas.
Com a globalização, a doença é cada vez mais encontrada nos EUA, Europa, Austrália e Japão. Os EUA são agora a sétima nação mais afetada no mundo. Dezenas de milhares de pacientes morrem a cada ano da doença de Chagas. Cerca de 30% dos indivíduos cronicamente infectados desenvolverão complicações cardíacas com alta probabilidade de morte. Menos de 0,2% recebem tratamento hoje (dados não publicados). Novos problemas estão surgindo, notavelmente com a transmissão de mãe para filho, que pode se tornar a nova face da doença de Chagas.
A doença de Chagas é uma crise oculta de saúde pública que precisa de atenção redobrada e urgente. Os pesquisadores, clínicos, pacientes, financiadores, sociedade civil e profissionais de saúde pública envolvidos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e implementação de programas de tratamento e prevenção, decidiram unir forças há cerca de 10 anos, para criar uma coalizão mundial com o objetivo de mudar o futuro da doença de Chagas.
A Organização Mundial da Saúde ( OMS ) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) desenvolveram planos estratégicos apoiando programas nacionais de controle em países endêmicos. Outras iniciativas, como a Uniting to Combat Neglected Tropical Diseases ‘London Declaration’ de 2012, incluíram a doença de Chagas como prioridade. Este contexto representa uma oportunidade sem precedentes para ajudar a definir uma agenda centrada no paciente que aumente o acesso às ferramentas e tratamentos de saúde existentes, apoie medidas integradas de prevenção de controle de vetores e expanda os esforços globais para estimular a inovação de ferramentas novas e aprimoradas para controlar a doença de Chagas.
Neste contexto, são fundamentais ações que possibilitem a obtenção de sucesso e que, sumariamente são:
1. Acesso: É hora de tratar, agora, facilitando o acesso às ferramentas de saúde existentes em áreas endêmicas, garantindo um forte compromisso político dos países afetados. A doença de Chagas é uma emergência mundial. Há uma necessidade urgente de melhorar a prevenção de todas as formas de transmissão, melhorar a qualidade de vida das pessoas infectadas e evitar os enormes custos relacionados à progressão da doença em pacientes individuais, famílias, cuidadores, clínicos e sistemas de saúde.
2. Inovação: Precisamos de uma agenda global de P&D sobre a doença de Chagas que estabeleça prioridades, identifique lacunas e coordene os esforços da comunidade de P&D (academia, organizações multilaterais, doadores, setor privado, institutos públicos e governos) em direção a metas e marcos claramente definidos para medicamentos, diagnósticos, vacinas e outras tecnologias essenciais de saúde.
3. Controle de transmissão: É obrigatório continuar trabalhando para prevenir diferentes formas de transmissão em países endêmicos e não endêmicos.
4. Advocacy: A conscientização pública e política sobre a doença de Chagas deve ser aumentada imediatamente; a mobilização de apoio político com recursos financeiros e técnicos deve se tornar uma prioridade.
É hora de unir forças e sinergizar esforços.
A Global Chagas Disease Coalition é uma aliança aberta, ambiciosa e colaborativa onde, juntos, por meio do compartilhamento de expertise, conhecimento e capacidade de ação, é esperado atingir a meta de aliviar o sofrimento humano causado pela doença de Chagas e, finalmente, controlar a doença de Chagas de uma vez por todas através do mundo.
No Brasil, ações no âmbito do SUS para garantir controle do sangue e orientação para o diagnóstico e controle de transmissões naturais ou alimentares, são fundamentais e absolutamente exequíveis.
Prof. Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994), da cidade de Campinas entre 2013 e 2020 e Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022. Atual presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, Diretor Científico da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH) e Pesquisador Responsável pelo CEPID-CancerThera-FAPESP.











