A criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar possíveis irregularidades no concurso de Residência Médica do Hospital Mário Gatti, proposta pelo vereador Vini Oliveira (Cidadania), está cada dia mais distante de ser instaurada.
A semana termina com a assinatura de seis, dos 11 parlamentares necessários para a comissão se tornar realidade. A base governista já deixou claro, tanto em tribuna como nas redes sociais, que seria precipitado o Legislativo abarcar as investigações uma vez que o prefeito Dário Saadi (Republicanos) já determinou suspensão do processo e apuração dos fatos.
A suspeita de fraude foi levantada após os cinco primeiros colocados do concurso terem alcançado a mesma nota e distribuição. O fato foi denunciado por outros participantes logo após a realização do concurso, que ocorreu no dia 26 de janeiro sob a organização da empresa Consesp – contratada por meio de licitação pública.
No requerimento que solicita a abertura de CPI, o vereador Vini Oliveira detalha possíveis irregularidades que possam ter facilitado a suposta fraude no certame.
Dentre os apontamentos que requerem investigação estaria a falta de demarcação dos assentos, a ausência de lacre e inspeção de aparelhos eletrônicos, a falta de acompanhamento de candidatos aos banheiros e ausência fiscalização de detectores de metais.
A denúncia também menciona que alguns dos aprovados apresentaram desempenhos muito abaixo da média em outros concursos de residência médica, o que levantaria dúvidas sobre a discrepância nas pontuações.
“Há fortes indícios de que houve irregularidades no concurso, incluindo possível intervenção externa e uso de dispositivos eletrônicos não fiscalizados. A Prefeitura Municipal de Campinas é vítima direta deste processo, tendo investido recursos públicos na realização do certame”, escreveu Vini, em uma das 14 postagens sobre o tema publicadas ao logo dessa semana.
Até o momento, assinaram o pedido de CPI as vereadoras Paolla Miguel (PT), Guida Calixto (PT), Mariana Conti (PSOL), Fernanda Souto (PSOL) e os vereadores Gustavo Petta (PCdoB) e o autor, Vini. Já Benê Lima (PL), que verbalizou seu apoio às investigações, não assinou o documento.
Logo na segunda-feira (10), assim que eclodiu a denúncia, a Rede Mário Gatti determinou a suspensão do resultado final do concurso para residência médica e também a abertura de procedimento interno para apuração de suposta fraude.
No total, o exame distribuiu 111 vagas em 17 especialidades médicas. Os aprovados atuariam nos programas de residência do Mário Gatti, Complexo Hospitalar Edvaldo Orsi (Ouro Verde), Hospital Maternidade de Campinas e nas unidades da Prefeitura.
BASE CAUTELOSA
Na última quarta-feira (12), um dia após a protocolização do pedido de CPI, o vereador Vini Oliveira subiu em tribuna durante a 3ª reunião ordinária para pedir a assinatura de demais vereadores. “Nós precisamos cumprir com a nossa função”, exigiu o novato na Câmara.
Na sequência, o vereador Zé Carlos (PSB) questionou a postura de Vini ao levar o tema à tribuna apenas após a suspensão do processo seletivo. “Vini, que você recebeu a denúncia você tem que fazer alguma coisa, senão você prevarica. Agora falar aqui na tribuna depois que foi suspenso todo o processo do Mário Gatti, daí fica muito fácil”, criticou.
A base governista reforça que a própria administração municipal tomou medidas rápidas para averiguar o caso. O líder de governo Paulo Haddad (PSD) ressaltou a iniciativa do prefeito Dário Saadi (Republicanos) em interromper o concurso de residência.
“O prefeito prontamente pediu para que esse concurso de residência fosse interrompido e a Consesp, que por meio de licitação foi encarregada de aplicar esse concurso de residência, vai ter que se explicar. A administração municipal não tem acesso às provas, que foram totalmente elaboradas e aplicadas pela Consesp”, afirmou.
Nas redes sociais, a vereadora Débora Palermo (PL) pediu cautela diante da situação e criticou eventuais precipitações.
“A gente precisa ter um pouco de calma. Às vezes, as pessoas, em busca de ‘likes’, são precipitadas. Eu não sou assim, jamais vou passar a mão em coisa errada. Não posso assinar uma coisa que a Câmara não tem condições nesse momento de averiguar”, argumentou.
APURAÇÃO
Há pouco mais de um mês, o vereador Vini se envolveu em uma polêmica após fiscalização do atendimento médico no Hospital Mário Gatti.
Após publicar um vídeo onde mostrava o vereador exigindo a lista de médicos que deveriam estar atendendo, e questionando uma das profissionais, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) solicitou a abertura de apuração ética junto à Corregedoria da Câmara Municipal de Campinas para apurar a conduta do parlamentar.
Essa semana, o Cremesp decidiu lançar uma contraofensiva aos episódios de invasões de hospitais e unidades básicas de saúde protagonizadas por políticos sob o argumento de fiscalizar o atendimento público.
Para a entidade, essas atitudes têm “violado” prerrogativas médicas e exposto os profissionais a situações de constrangimento.
A tentativa de emplacar uma CPI, para alguns interlocutores do governo, seria uma maneira do vereador Vini Oliveira redirecionar a atenção do eleitorado e afastar as críticas que recebeu da área médica.
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