Não, não há erro no título! Estamos mesmo nos convidando a pensar como estará o nosso mundo daqui a cem anos, já no século 22…
Vamos, para dar um início sequencial, recordar um pouco da segunda década do século 20, lá por 1924 – 1925.
A Primeira Guerra Mundial terminara há um lustro. Politicamente, consolidavam-se regimes fechados: o stalinismo na URSS e o fascismo na Itália.
O desenvolvimento econômico e tecnológico se animava: evidenciava-se a continuidade da industrialização e espocavam muitos avanços científicos. A Europa ainda se reconstruía e os EUA se destacavam como potência mundial.
Muitas transformações artístico-culturais ocorriam – a década foi sugerida como a “efervescência dos Anos Loucos”. O jazz, como ritmo, estilo, e o charleston, como dança, se firmavam como grandes novidades musicais. O cancã não era novo, mas intensificava o desafio à moral nos cabarés de Paris.
No Brasil, movimentos de inspiração revolucionária agitavam a sociedade, tais como o tenentismo e a coluna Prestes. A “Semana de 22” cutucava com a arte moderna.
Em “O Senhor do Mundo” (1904), o visionário Júlio Verne descreve uma máquina que se locomove na terra, na água e no ar, antecipando conceitos de veículos anfíbios e aeronaves com capacidade de pousar na água. Na década de 1920, tivemos avanços reais significativos em hidroaviões.
A ficção científica estava se sedimentando, num panorama mais romântico, com heróis atuando em futuro ameaçador, mas utopicamente conduzido a um final feliz.
No início da década de 1930, Buck Rogers (por Philip Nowlan) teve que enfrentar a concorrência de Flash Gordon (por Alex Raymond). Os dois não tinham superpoderes, seus recursos eram a tecnologia muito avançada. Armas de raio, mochilas a jato, relógios com comunicação audiovisual, foguetes velocíssimos foram exemplos da parafernália. Muita coisa das personagens de Verne e desses heróis das histórias em quadrinhos pode ser entendida como antecipações de equipamentos do futuro que estamos vivendo hoje, no século 21. Buck Rogers era apresentado no século 25.
Mais tarde, nas décadas subsequentes do século 20, super-heróis sugiram em abundância, personagens bem fictícias, mas em ambientes contemporâneos às publicações. O Super-Homem (por Siegel e Shuster) vivia suas principais aventuras em plena década de 1950.
Os autores que trabalhavam na ficção científica com este vislumbre realmente futurista, desde há cem anos atrás, estavam sempre indicando equipamentos de tecnologia avançadíssima que vieram, em sua maioria, a acontecer efetivamente na realidade. O progresso tecnológico era adivinhado, algo premonitório…
Mais adiante no tempo do século passado, o filme “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick (1968), antevê o conflito da máquina comandar o homem. A franquia “Star Wars” (direção de George Lucas – o primeiro filme é de 1977), especula várias perspectivas futuristas – os robôs “dróides” têm hoje equivalentes na Robótica da Nasa. Os vários episódios não caracterizam claramente um final feliz, utópico.
Ao lado das deliciosas utopias, a arte do século passado também foi rica em começar a oferecer o oposto. “Nós” (1921), livro de Yevgeny Zamyatin, é habitualmente citado como o primeiro romance distópico moderno. “Admirável Mundo Novo” (1932) é um clássico também forjado na distopia, de Aldous Huxley.
O mais impactante e popularizado clássico distópico, por conta dos programas de televisão aberta que seguem circulando mundo afora, em plena atualidade, é a obra de 1949, escrita por George Orwell: “1984”, precursora do “Big Brother”.
A trilogia “De Volta para o Futuro” (o primeiro é de 1985, todos dirigidos por Robert Zemeckis) cria um desvio, um outro rumo nessa trajetória. Ela intercala idas ao passado com incursões ao futuro, mas predominando nas viagens aos tempos anteriores, de modo que os assuntos são menos especulativos quanto aos avanços da tecnologia.
As distopias parecem mais interessantes, é claro que nisso sempre tem a pressão do mercado consumidor. Ainda assim, aspectos éticos, morais, sociais e ambientais fazem algumas obras serem culturalmente fortes, apesar do apelo à violência. Afinal, a industrialização analógica se encolhe para a expansão da digital.
As principais: “O Conto da Aia” de Margaret Atwood, livro de 1985, o filme “Duna” versão mais recente, em duas partes (2021 e 2024), dirigida por Denis Villeneuve, e a franquia “Mad Max” (o primeiro em 1979, o quinto em 2024, com a direção de George Miller). E ainda o filme mais respeitado pela crítica: “Blade Runner (versão inicial em 1982, de Ridley Scott).
Parece que os artistas que trabalham nas ficções mais modernas estariam menos “corajosos”, palpitando menos sobre as maravilhosas máquinas da tecnologia futura.
Devemos ressalvar, no entanto, que pode ser uma “covardia” funcional, aceitável, pois a velocidade da evolução dos equipamentos atropelaria a virtude visionária e utopista. Assim, um mês antes do lançamento todo projetado, agendado da ideia no livro ou no filme, as lojas já teriam lançado a novidade…
Em todo caso, não custa jogar alguma fantasia no ar: no Réveillon de 2124 para 2125, será possível estar presencialmente em vários lugares, em tempo real, para dar um abraço bem apertado nos amigos, familiares e colegas que mais estimamos.
Por enquanto, os abraços seguem por esta maravilhosa mídia digital! Excelente 2025!
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor.











