Os estudiosos da alma sabem que o ser humano é a única criatura que vive angustiada com seu destino, consciente de seu próprio “ponto final”, enquanto tenta lidar com as vírgulas e dar sentido às reticências…
O fim é uma construção da perspectiva. Na objetividade da ciência, nada se cria ou se perde, tudo se transforma; na subjetividade da psique, tudo se complica em luto ou alívio. Entre a pequena despedida do cotidiano, das viradas da noite e do dia, e o silêncio definitivo da biologia, no desligamento último, existe uma escala de “fins” que testam nossa capacidade de tolerar o vácuo.
Como desejamos o “final feliz”! Ansiamos por essa chegada inebriante sem pensar muito na sequência. Os filmes românticos têm o “happy end” – eis que a heroína e o príncipe beijam-se intensamente no lindo castelo onde irão morar. Se imaginassem brevemente como seria a vida no local, os funcionários a contratar, as vacinações dos filhos, algum familiar perverso, talvez repensassem a empreitada…
Existem aquelas formaturas muito bem comemoradas – o curso demandou bastante, mas os formandos suportaram e celebraram festivamente. Maravilha, mas a competição no mercado profissional, imediatamente após, pode se revelar mais árdua e frustrante do que os anos de estudo. Um final delicioso, mas lamentável, é o orgasmo. Tão intenso, tão prazeroso, tão desejado, mas, uma vez obtido, joga uma ducha fria nos parceiros – os franceses o chamam de “petite mort”, uma pequena morte. É claro que temos alguns defensores da postergação sexual. O pessoal do Tantra estica a excitação, adia o prazer máximo pelo maior tempo que conseguir. Seria o êxtase expandido.
Namorar, noivar, conviver e casar são propostas de continuidade, mas as rupturas, divórcios e viuvez frustram os pares – alguns sofrem um profundo e longo luto de morte com as separações. Vivemos colecionando encerramentos. A aposentadoria, por muitos tão sonhada, é a morte profissional que deve ser muito bem elaborada. Afinal, a pessoa se dedicou a esse trabalho por quase meio século. Como relaxará saudavelmente sem esse compromisso?
Essas pequenas mortes bem elaboradas preparam a pessoa para o falecimento último. São ensaios do adeus. Em alguns finais, a parte terminada pode permanecer muito vivaz, como fantasmas ou cicatrizes. Viúvo há seis anos, aquele senhor torcia pelo próprio fim para reencontrar a esposa. Aposentada há três, aquela diretora se oferecia para ajudar em tarefas da escola, mesmo sendo mal recebida.
E a morte em parcelas? A mutilação de um braço não liquida a vida, mas é o fim definitivo da anatomia pessoal. Por vezes, é morte sem esquecimento, pois o corpo torna-se um memorial do que foi perdido. Diferentemente da morte corporal, onde o silêncio é pleno, na mutilação o fim é ruidoso: a representação cerebral da parte mutilada, o “membro fantasma”, pode reservar um espaço que a biologia já deletou. É a parcela mutilada, mas sempre lembrada, a dificuldade de ser um sobrevivente de si mesmo, carregando o cadáver invisível de uma parte que nunca mais poderá massagear, mas que insiste em doer.
Em 2023, escrevi artigo para o Correio Popular sobre a “última morte” do futebolista Garrincha. O grande astro do esporte teve sua morte física 40 anos antes, em 1983, depois de várias mortes parciais. A vida pessoal e a saúde de Garrincha foram morrendo pelo alcoolismo, pela má administração financeira, pelo esquecimento dos torcedores e das instituições. O seu contemporâneo Pelé morreu sempre lembrado e com toda riqueza, mesmo com limitações físicas que também significaram parcelas mortas.
A seleção brasileira de futebol está ameaçada de fracassar nesta próxima Copa, seguindo um processo de várias parcelas de insucesso. Não temos mais o romantismo vitorioso, porém trágico, de Garrincha, e estamos diante de um profissionalismo cirúrgico dos atletas modernos. O amadorismo da várzea incentivado pelo patriotismo esportivo entusiasmava o menino-craque à glória na seleção do País. Hoje, o maior estímulo é que ele seja um atleta-empresa. A seleção brasileira não terá morte definitiva, mas precisa de menos mortes parciais. Qualquer grupo, seleção, elite ou comunidade são compostos por pessoas, todos limitados e mortais.
Todos chegaremos à morte, o fim sem adjetivos. A morte biológica não aceita metáforas de continuidade. Ela é o fim determinante. É o último ato, quando as coreografias do palco se derrubam, e o próprio teatro é demolido. Aqui, a relatividade se esgota. É o fim absoluto porque interrompe o fluxo da subjetividade. Não há potencial, nem latência vital no rigor mortis. No entanto, Freud cutucaria: nosso inconsciente é incapaz de acreditar na própria aniquilação, e por isso criamos religiões e legados — tentativas desesperadas de tornar relativo o que é, por natureza, definitivo.
Olhar para a morte como o fim último, sem chance de salvação ou reencarnação, é o maior desafio da maturidade. Se a morte é o fim absoluto, então todos os outros fins são, na verdade, exercícios de liberdade. Se não há salvação final, a salvação deve ocorrer agora, na escrita da frase, antes que o ponto final — aquele que não permite revisão — seja imposto pela biologia.
Onde a ciência coloca um ponto final, a religião desenha uma reticência. Ela oferece o bilhete de retorno, o conforto de que o fim determinante é apenas uma alfândega para uma existência sem corpo. Ou até para a ressurreição deste. Logo após o “imposto pela biologia”, surge a mão estendida da metafísica.
Ao denunciar o caráter ilusório da salvação, não se faz necessariamente um ataque à fé, mas um convite à lucidez. Aceitar que o fim é determinante e que não há “salvação” é ato supremo de coragem existencial. É admitir que a luz que brilha no fim do túnel não é a do paraíso, mas o último lampejo da consciência que se apaga.
Sem o conforto da ilusão, somos forçados a encontrar sentido no finito. Se não há vida eterna, este parágrafo, este orgasmo e esta despedida são tudo o que temos. A dignidade humana reside justamente em olhar para o abismo do fim absoluto e, mesmo sabendo que não há corda de segurança, continuar a caminhar.
Portanto, meu caro crente, reforce vigorosamente a sua fé. E, meu amado descrente, estude mais, mergulhe mais na Ciência e morra afogado no conhecimento!
Joaquim Z. Motta é psiquiatra, sexólogo e escritor











