São importantes os dados recentes sobre criminalidade trazidos pela imprensa e, em especial, discutidos no editorial “Contra crime organizado, Estado organizado” no Estadão de 10/7. A pressão demográfica e a condição socioeconômica das pessoas são elementos cruciais para a formação dos exércitos do crime, fatores que estão longe de serem resolvidos pelo Estado brasileiro. Com a proibição das saidinhas, especialistas avaliam que essa pressão aumentará dentro dos presídios.
Dentro das avaliações quantitativas apresentadas, falta saber quantos criminosos impunes atuam no País e comparar esse número com o contingente das Forças Policiais. O enfrentamento não deveria ser um a um, cara a cara, mas a inteligência para desmantelar as ações parece funcionar pouco. No mais, vemos um total despreparo do policial na rua que identifica todo transeunte – ainda mais se negro, pobre e periférico – como potencial criminoso.
Diziam que quanto mais rico o lixo de uma cidade, de uma comunidade, mais pobre ela é. Devemos considerar também a classe política nessa hipótese, uma vez que parece que nossos políticos enriquecem cada vez mais com a miséria do país. E com a criminalidade, talvez por ser parte dela e associada ao enriquecimento.
Assim, aquele mesmo jornal fez um interessante levantamento quanto ao ranking dos políticos mais ricos (3/7), e, de forma complementar, caberia uma correlação com os votos obtidos por tais políticos milionários e as doações realizadas para si próprios e para correligionários. A teoria do medalhão, de Machado de Assis, continua válida, séculos depois.
O medo de um segmento de deputados ao punir um dos irmãos Brazão foi significativo e representativo de seu envolvimento com o crime organizado. Parte dessa riqueza vem daí. Os representantes do povo não deixam suas atividades remuneradas e lucrativas para se dedicar exclusivamente ao trato da coisa pública.
Sobreposição de interesses não é exceção e passa a ser regra no enriquecimento ilícito. Se a criminalidade está na parte mais baixa da sociedade, o exemplo está vindo de cima.
Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp, membro da Academia de Letras de Lorena, da Academia Campineira de Letras e Artes e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.











