Beber álcool é uma parte importante da cultura ocidental, sendo especialmente comum para festejar e socializar, como o que ocorre agora na época das confraternizações de fim de ano. No entanto, seu uso nocivo está associado a diversos tipos de doenças e agravos, provocando a morte de milhares de pessoas anualmente.
Um dos piores padrões de consumo é o abusivo, quando se ingere um volume grande de álcool num curto período de tempo. Embora esse comportamento ainda seja bastante presente no mundo, estudos mostram que a Geração Z está bebendo menos. Nascidos entre 1995 e 2010 começam a beber mais tarde, bebem com menos frequência, em quantidades menores e são menos propensos a se embriagar.
No entanto, muitas pessoas ainda sofrem com censuras quando decidem seguir por esse caminho. Essa atitude é chamada de sober shaming ou de “vergonha da sobriedade”, e consiste no ato de causar vergonha ou constrangimento em alguém que decide não beber. O termo, que ganhou a atenção nas redes sociais, surgiu por volta de 2021, por meio de uma campanha de uma ONG do Reino Unido chamada Alcohol Change UK.
Já notou que exagerar no consumo do álcool costuma ser normalizado pela maioria das pessoas, mas quando alguém opta por reduzir ou parar, a decisão é vista ainda com certo estranhamento?
A vergonha da sobriedade pode acontecer de forma sutil, quando alguém pergunta: “por que você não vai beber?” ou de forma mais direta, quando se acusa a pessoa de ser chata por não beber. O simples fato de ter que justificar por que não quer beber já é um exemplo dessa pressão social. Na pior das hipóteses, pode haver até exclusão com base na não aceitação da abstinência do álcool.
Esse questionamento está muito ligado ao fato de que, em diversas culturas, o álcool se tornou sinônimo de diversão e a diminuição do seu consumo acaba sendo frequentemente associada a tédio e aborrecimento. Desse modo, o sober shaming faz parte do medo, ainda hoje existente, de que é preciso se embriagar para se divertir, o que não é verdade.
Quem decide reduzir ou parar de beber costuma prestar mais atenção na sua relação com o álcool e sentir que não só é possível se divertir sem se embriagar como também obter diversos benefícios, a exemplo da melhora do sono e de mais disposição.
As pessoas podem não saber que estão praticando sober shaming, e muitas não o fazem de propósito, sendo intencionado como uma brincadeira. Mas, ainda assim, pode ser muito prejudicial, especialmente em combinação com todas as outras mensagens de que beber é “normal” e não beber não é.
Ao praticar sober shaming, estamos dizendo às pessoas que sua decisão não é válida. Em vez disso, podemos mostrar respeito e apoio, reconhecendo que cada um tem o direito de fazer suas próprias escolhas sobre o consumo de álcool. Por isso a mensagem é clara: respeite a decisão e não insista para a pessoa beber.
Mariana Thibes é socióloga e coordenadora do CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. Possui doutorado em Sociologia pela USP e pós-doutorado em Ciências Sociais pela PUC-SP.











